Um Livro sobre o “Apocalipse”. Por Luis Fernando Amstalden

Publicado em 2 de julho de 2012 por

0



Foto de Juliana Machado Amstalden

Nós falamos muito em Meio Ambiente, em sustentabilidade, em pacifismo, em justiça social, falamos na necessidade de mantermos uma sociedade harmônica, educada, justa, mas o quanto realmente nós percebemos a importância disto tudo? A impressão que as vezes tenho é a de que nós simplesmente falamos mas continuamos a tocar nossas vidas como se nada disso pudesse realmente nos atingir. Ou seja, nos declaramos preocupados, mas não nos empenhamos mesmo em mudar nossos comportamentos, nossa forma de ser.

Você consegue imaginar o nosso mundo e nossa civilização em colapso, seja porque causamos uma grande crise ambiental ou porque o destruímos por uma guerra nuclear? Você consegue imaginar a sociedade regredindo a um estágio de barbárie no qual só importa a sobrevivência pessoal e o único valor é a força bruta?

Se não consegue, ou mesmo se consegue, sugiro um livro maravilhoso para estimular sua imaginação e sua reflexão. Trata-se da obra “A Estrada” (de Cormac MaCarthy, publicado pela Editora Alfaguara).

Num mundo em colapso, provavelmente por um conflito nuclear que não é descrito, o sol fica encoberto por uma grande nuvem de poeira e não sustenta a vida. As plantas morrem por falta de fotossíntese e os animais com elas. Bandos de homens semi selvagens e famintos andam pelas estradas. Alguns poucos solitariamente e a beira da morte. Outros formando bandos cruéis, guerreiros e canibais com escravos que são transformados em gado vivo.

Neste cenário terrível, um pai e um filho, criança ainda este, tentam chegar ao sul na esperança de encontrar mais luz e calor, e portanto, mais vida. Com uma arma e poucas balas, têm que sobreviver aos inúmeros perigos. Não há comida nem abrigo e usam-se as sobras do mundo industrial que deixou de existir. O pai, obstinado, luta para sobreviver e dar a seu filho uma chance de sobrevivência.

Mas é exatamente este elo entre pai e filho que lhes dá a força para viver. Na sua relação, sobrevivem os valores humanos e a esperança humana. A sensibilidade da criança, sua inocência fortalecem o pai e este, num cenário de horror total, busca ainda instruir o filho tanto para a sobrevivência quanto em termos de uma cultura e valores que deixaram de existir. Poeticamente, eu penso que o pai mantém seu filho como uma esperança de humanidade em meio ao caos, a brutalidade, ao desespero. O filho é o sentido de se trilhar a estrada, o sentido de existir e construir um futuro. De forma mais prática, penso que o livro é uma excelente obra para refletirmos sobre a fragilidade da vida humana na Terra, sobre nossa dependência em relação ao Meio Ambiente e a necessidade de evitarmos o nosso colapso.

A leitura é tensa, mas cativante, repleta de lances sensíveis e brutais e na nossa vontade de saber o desenlace, fica difícil parar de ler. Recomendo muito, muito mesmo.

Posted in: Estante