Ser “anti-Globo” está na moda. Por Maxx Zendag

Posted on 1 de abril de 2013 por

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globo

Em tempos de globalização digital, onde as pessoas se relacionam mais pela internet – através das redes sociais – do que pelo convívio diário, as palavras têm um peso maior contra quem as profere, pois não são simplesmente ouvidas, mas lidas no status do Facebook ou em uma postagem do Twitter. Essa palavras ali ficam, disponíveis para serem acessadas a qualquer momento, até meses (ou anos) após sua publicação. Se quando dizemos algo que desagrada ao nosso meio social, já sabemos que haverá consequências. Como diz um dito popular, “a sociedade não perdoa”. E esse efeito nocivo das palavras adquiriu proporções inimagináveis com as redes sociais, onde você poderá responder hoje pelo que disse há um ano atrás.

Até mesmo por isso, o que se observa é que os usuários dessas redes estão, cada vez mais, preocupados com a sua imagem diante de seus “amigos” ou “seguidores”. Isso deu origem a uma interpretação errônea do valor das pessoas, que é medido pelo que elas “compartilham”, ou pelas fotos de seu perfil, ou pelo número de “curtidas” que recebem – e não pelo que o invivíduo é e faz no mundo real. Com isso, o indivíduo se sente “cobrado” pela sociedade e precisa provar que não é apenas mais um na multidão virtual.

Essa realidade explica uma tendência que vem crescendo nos últimos tempos: a ideia de ser “anti-Globo”, que consiste em criticar qualquer produto dessa emissora de televisão, de forma que este seja relacionado à ignorância das pessoas que o assistem. Um exemplo clássico é o reality show Big Brother Brasil, considerado por aqueles que se dizem “pensantes” como o fundo do poço em termos de conteúdo. Mas a lista de atrações que viraram alvo dos pseudo-intelectuais é extensa: temos o Jornal Nacional, tido como imparcial e manipulador; a novela das nove, por “promover apologia a crenças pagãs”; o Faustão, por seu hábito de interromper os entrevistados; o sensacionalismo do Fantástico; a ausência de uma programação infantil nas manhãs; além, é claro, do evidente besteirol do Big Brother Brasil e das pérolas proferidas por Pedro Bial ao anunciar a eliminação de um dos “heróis” do programa (sim, eu estou sendo sarcástico).

Quero lembrar ao estimado leitor que não sou telespectador assíduo da Rede Globo, mas por que crucificar desta forma uma única emissora? Pressupõe-se, então, que os brasileiros têm excelentes alternativas na televisão aberta.  Como a Record, que cresceu de forma expressiva graças à poderosa igreja que a financia. Uma emissora com um histórico curioso: antigamente, prevalecia uma programação mais “familiar”, até que um dia os bispos perceberam que poderiam copiar as fórmulas da concorrente que por anos eles atacaram: apareceram as novelas, o jornalístico sensacionalista (Domingo Espetacular), os programas de humor (Tom, Mion etc.), os apelativos programas de auditório (como O Melhor do Brasil). E a IURD, que antes exercia assumidamente sua influência sobre o conteúdo da programação, de repente foi reduzida a um mero patrocinador das madrugadas! Será que o grande público sabe que igreja e emissora ainda são parte de uma mesma organização?

E o que dizer do SBT? Uma rede que vive refém das ideias e vontades do dono, que com seu espírito de vendedor, hoje a sustenta com sua famosa loteria e a cópia de programas americanos.

Mas você pode mudar de canal e encontrar “A rede de TV que mais cresce no Brasil” com seu Teste de Fidelidade, “O canal do esporte” com o programa que deixa seu humor em Pânico, e emissoras que investem os dízimos dos fiéis de forma proveitosa, fazendo uso dessa renda para manterem-se no ar. Bons tempos aqueles em que a “obra de Deus” era ajudar os mais necessitados, e não expandir um conglomerado de igrejas de ricas e modernas instalações ou custear seus canais de TV.

Diante dessa triste realidade, o que fazer? Vamos agora criar a onda “anti-Record”? Ou seria melhor “anti-SBT”? Não, não, vamos logo iniciar uma campanha “anti-TV aberta”! Nada disso. Até mesmo por que na TV paga as opções são os mesmos filmes inéditos, os mesmos documentários, sendo reprisados à exaustão durante todo o mês. E ainda há aquele projeto de lei que exige uma cota mínima de conteúdo nacional nos canais fechados. Sinceramente, estou com medo.

A minha proposta, caro leitor, é que em vez de levantar uma bandeira com o logotipo da Rede Globo e queimá-la para, no mesmo dia, postar o vídeo no Youtube e divulgá-lo no Facebook – só para ter o status de cidadão pensante – , vale mais seguir a frase que tomo emprestado de um canal de TV que sequer tem coração brasileiro (a MTV):

“Desligue a TV e vá ler um livro!”

Nascido Marcelino Agostini de Campos em 1983 em Piracicaba, São Paulo, Maxx Zendag concorreu com obras de humor gráfico no Salão Internacional De Humor de Piracicaba, no qual participou, em 2010, com a exposição fotográfica “É Uma Limgua Portugueza Concertesa”. É Auxiliar Administrativo, e autor do livro “A Águia Dos Ventos: O Leão Do Mirante”. Sua mente inquieta o faz continuar a criar nas horas vagas.