Coluna do Totó. A Volta

Posted on 29 de março de 2014 por

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Eram o pai e dois filhos. Havia também muitos empregados, pois grande e muito próspera era a fazenda e trabalho não faltava. Tudo parecia ir muito bem até o filho mais novo encher a cabeça de minhocas. O pai já vinha notando seu comportamento fora do padrão. Mas, entendia que estava na hora de o menino ter decisões próprias.
Num belo dia: “Pai, dá-me a parte que me cabe”. Foi um choque. O pai não esperava tanto. Sem chantagens, pragas ou ameaças dividiu os bens entre eles. Porém a ousadia do caçula não parou por aí. Dias depois catou suas coisas, juntou seus haveres e sem um abraço sequer bateu a porta. Finalmente a liberdade. Cheio de saúde e dinheiro, o mundo estava os seus pés.
Pelo vão da janela, o olhar embaçado do pai seguiu o filho até desaparecer na estrada. Enxugou as lágrimas e daquele dia em diante passou a aguardar sua volta. Aliás, todo fim de tarde, da varanda fixava o olhar sobre a estrada a espera de grata surpresa. Incomodado, o mais velho, tentava provar exclusividade e redobrou esforços, apesar de o pai parecer não notar isso. Trabalhava duro e não se dava qualquer luxo, nem menos festejar com amigos. Do irmão mais novo procurava esquecer; seu gesto o importunava, mesmo porque jamais havia tido uma atitude própria. E nem precisava correr esse rico como aquele irresponsável. Estava muito bom e muito bem ali.
Não era tanto o amor do pai que contava e o tornava pertencente, mas seu comportamento irrepreensível. Seu esforço e dedicação serviam como atestado de idoneidade e garantia de direitos. Só um cego não perceberia a diferença entre os dois.
Aliás, por onde andaria aquele cabeça de vento, que trocou a proteção do pai por sonhos? Onde merecia estar, cuidando de porcos. Perdeu tudo. Desceu até o fundo do poço. Sentiu na alma o vazio dos que só têm dinheiro e nada mais; e no coração a dor que sentem os solitários rodeados de ‘amigos’. Experimentou o amargo que brota das almas dos que negam a si mesmos para fazer parte do jogo. Não encontrou nada do que sonhara. Viu-se entre porcos disputando bolotas.
Caiu em si. Não tinha mais ninguém além de si mesmo. Que estou fazendo comigo? Preciso voltar. A figura do pai iluminou-lhe a mente. Que saudades! Mesmo que me trate como trata os empregados está bom demais. Exigir o quê depois de abusar de sua bondade? Assim pensou e assim fez. Era de atitude aquele que partira moleque e retornava homem.
O vulto maltrapilho despontando na estrada fez bater forte o coração do pai, que não titubeou. Pressuroso, correu ao seu encontro, abraçou-o, cobrindo-o de beijos. As lágrimas se juntaram nas faces enquanto o filho atônito esboça o pedido de perdão que veio preparando no longo da volta. Queria também agradecer ao pai por não ter impedido sua partida. Foi assim que conheceu a vida, a si mesmo e o imenso amor do pai. Essa era sua verdadeira herança.
Sem mais esperar, o pai mandou fazer uma grande festa.
O mais velho, voltando do campo como fazia há décadas, ouviu barulho de festa e perguntou o que estava acontecendo. Disseram-lhe que seu irmão voltara e seu pai resolveu festejar por tê-lo recuperado com saúde. Tomado pela raiva não quis entrar. Que pai é esse que adula um esbanjador enquanto ele, que sempre fez tudo direito, nunca ganhou festa alguma?
Saindo pra fora o pai suplicava-lhe que entrasse, pois amava com a mesma intensidade tanto um quanto o outro; e se tivesse acontecido com ele o que aconteceu com o mais novo, seria recebido da mesma forma.
Porém, apesar de sempre com o pai nunca conheceu e nem experimentou de fato a grandeza do seu coração. Trabalhou demais e amou de menos.

Antônio Carlos Danelon é Assistente Social

totodanelon@ig.com.br

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