Pesos e medidas. Ou, minha resposta a um amigo. Por Luis Fernando Amstalden

Posted on 6 de março de 2016 por

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Essa é uma resposta a um leitor que admiro muito, e que questionou minhas observações sobre o interrogatório de Lula. Para entender melhor, leia os comentários de Antônio no post anterior.

Meu Caro Antônio.

Em primeiro, devo dizer que aprecio muito seus comentários e não é de hoje. Não nos conhecemos pessoalmente, mas você me honra a muito tempo acompanhando este Blog e fazendo comentários sempre muito lúcidos. Este último, inclusive. Por tudo isso eu o agradeço e faço, novamente, um convite que já fiz há muito: escreva para o Blog. Seja um dos nossos colaboradores. Suas análises são pertinentes e nos enriquecem.

Mas vamos ao nosso debate, que é a razão de ser do Blog, debater ideias e pensar juntos.

Em primeiro, Lula não foi preso. Foi conduzido a um interrogatório. Sim, foi um mandado coercitivo, algo desagradável, desonroso, eu concordo. Mas quer saber? Se não fosse isso, ele seria realmente interrogado? Ou a enxurrada de habeas corpus protelaria indefinidamente o interrogatório?

Você pode argumentar, com razão, que os outros nunca são ouvidos por isso, porque se valem de brechas legais para não falar. E se disser isso, tem razão.

O juiz Moro foi bem ousado, ou talvez esperto, em se antecipar. Não desconheço as ligações dele como o PSDB e nem sou tolo de acreditar que isso não tem nenhuma influência sobre o zelo dele. Pode até não ter, mas eu não negaria, tampouco que pode ter.

Mas a questão é outra. Assim como ele o fez, antecipando uma enxurrada de papéis e mandatos que impediriam o interrogatório, eu quero que outros sejam tão zelosos quanto e que TODOS os políticos que estão na mesma situação, sejam interrogados. Mesmo que para isso um juiz tenha que ser “esperto” ou “rápido”.

Voltando, à questão, reafirmo, não houve prisão. E posso estar errado, mas sendo assim, melhor para Lula. Ele pode, finalmente, ser ouvido, falar e agora, tomar as cabíveis medidas legais. Se não houver nada contra ele, melhor ainda. Vai sair mais forte e, talvez até, com chances de reeleição.

Eu fiquei contente sim, Antônio, mas não porque Lula tenha sido levado coercitivamente e muito menos pela exploração da mídia. Mas porque assim essa “novela” se encaminha para o fim. Se nada houver contra, repito, então ele terá condições de se defender e até crescer com a crise. Se houver, então abriu-se um precedente importante. Eu fico contente com isso. Não satisfeito. Satisfeito e feliz, só quando o precedente se tornar o padrão e todos os demais percam suas mil artimanhas, como Cunha, que se vale deles de maneira que só não é ridícula porque é vergonhosa acima de tudo.

Em segundo, não temo um linchamento. O PT, agora, tem fundos mais do que suficientes para se defender e provar a inocência de Lula e dos outros. No injusto jogo da justiça capitalista, eles não estão desamparados. Desamparados estão os que não tem dinheiro para contratar advogados.

Em terceiro, Antônio, não posso acreditar que tudo o que se levantou até agora, inclusive a cessão do tríplex, suas reformas e, muito pior, os desvios da Petrobrás, sejam apenas armações ou perseguições. Desculpe-me, mas não me parece plausível isso. Claro, falar em pedalinhos não deixa de ser ridículo quando outros tem iates. Mas mesmo assim, há algo aí e o PT não conseguiu refutar tudo legalmente, tanto que alguns de seus expoentes estão presos.

Será que a prisão deles foi, também, injusta? Será que vivemos em um estado tão ditatorial que encarcera inocentes de maneira tão arbitrária? Se é assim, porque os presos não apelaram para as cortes internacionais de justiça ou de direitos humanos? Não Antônio, existem débitos sim. E se o partido e seus expoentes querem mesmo manter seu respeito, que se defendam e saiam fortalecidos, seja provando a inocência ou seja assumindo seus erros. Isso teria meu respeito mais profundo.

Por outro lado, claro que não deve parar aí. Claro que há muito mais em todos os outros. Essa é a tônica da política brasileira e sempre foi. Alguém aqui acredita que o PSDB paulista teria tentado colocar as contas do metrô em sigilo de segurança nacional se não houvessem débitos nelas? Há manobra mais cínica do que isso? E, de fato, a imprensa não marca tão cerrado as suspeitas de corrupção do outro lado. Nem tampouco, me parece, os juízes são tão zelosos. Ou então, talvez, o outro lado seja muito mais ardiloso nos seus crimes. Esta diferença, Antônio, é uma tragédia, uma distorção absurda. Um escândalo que precisa ser combatido. Mas eu não creio que possa exigir que seja assim se não aceitar que mesmo pedalinhos ou apartamentos menos suntuosos do que mansões de outros, sejam também aferidos. Não há dois pesos e duas medidas. Pedalinho, trens, iates, refinarias, cargos, todas as irregularidades têm que ser apuradas, seja qual seja seu valor venal.

Meu amigo, permita-me um desabafo. Penso que a situação ficou extremamente irracional. Se aponto falhas e irregularidades no PT, sou criticado e quase agredido por muitos que parecem acreditar que tudo não passa de grande complô da direita e de Donald Trump. Ao contrário, se aponto as irregularidades do PSDB ou de outros partidos, sou quase linchado por aqueles que creem em uma suposta conspiração “comunista bolivariana” ou até judaico comunista, como um idiota chegou a comentar neste Blog.

Tudo isso, meu amigo, é, a meu ver, absurdo. Não vamos construir nada sem clareza, sem crítica e auto crítica. Mas do jeito que as coisas vão, parece que Jesus, o Buda e Maomé voltaram à terra. Parece que Lula, FHC, Aécio e até Bolsonaro viraram profetas perseguidos e acima do questionamento.

Estou cansado disso. “Acima de críticas” estavam Hitler, Mussolini e Stálin. E nós sabemos, hoje, no que isso resulta. Não quero um novo líder inconteste, nem de um lado e nem de outro e acredito, Antônio, pelas coisas que você já escreveu, que essa também não é sua vontade. A verdadeira esquerda, penso eu, significa poder para toda a sociedade. Não para um partido, para uma pessoa ou para grandes empresas. Não existem salvadores da pátria, nem Lula, nem FHC, nem Aécio e nem Bolsonaro. Todos serão injustos se não estiverem sob o controle social. E eu fico contente que isso esteja acontecendo, ainda que parcialmente. Espero que aqueles que nos leem agora, pensem nisso. E deixem de defender a qualquer custo, heróis inexistentes.

Claro que isso, no entanto, significa pensar um pouco além da grande mídia, que não é nada imparcial.

Um abraço.

Luis Fernando Amstalden