Da guerra. Por Luis Fernando Amstalden

Posted on 10 de outubro de 2023 por

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É, eu sei. Você acha a guerra excitante e atraente, não é?

Não, eu não estou chamando a sua atenção. Eu entendo. Todos nós temos dentro de nossas mentes um certo desejo de destruição, de matança. Todos nós temos dores, frustrações e até estresse que nos faz querer, as vezes, agredir e pegar em armas destruindo tudo e todos a nossa volta. Isso não é novidade, sabe? Vem desde há muito tempo. E com a tecnologia, desde filmes chamados de “ação” ou “aventura” e ainda os games, fica ainda mais “desejável” e excitante a ideia de lutar em uma guerra.

Mas, você já viu alguém morrer? Já esteve ao lado de alguém agonizando e lutando para respirar? Eu já…

E vou lhe contar: não há nada de excitante, empolgante e bonito nisso. Não há nada de glorioso. Não, eu não vi uma pessoa morrer vítima da violência. Vi morrer de uma doença que foi violenta e cruel, mas não foi uma morte provocada por outros seres humanos. E esse segundo tipo de morte é pior, bem pior…

Nos games e nos filmes, alguém é atingido por balas ou bombas e simplesmente “apaga”, mas na guerra não é assim. Alguns até tem essa “sorte”, mas não a maioria. A maioria agoniza dolorosamente, sem os remédios que tiram a dor como a da pessoa que eu vi expirar.

Morrem com dor, entre sangue, fezes, urina, as vezes vendo seus membros arrancados ou suas entranhas espalhadas. Alguns são soterrados ou abandonados sem socorro e levam muito tempo para morrer, sentindo o desespero da solidão e do desamparo além da dor da sede e da fome. Muitos morrem gritando por suas mães ou clamando para perderem logo a consciência. Não é mito glorioso, não é?

E falando em fezes e urina, não é só ao morrer que um combatente perde o próprio controle sobre elas. Inúmeros relatos confirmam que em meio a bombardeios ou tiroteios, perde-se o controle sobre a bexiga e os intestinos.

Aliás, você já ouviu o assobio de um projétil passando por você?  Ou esteve perto de uma detonação de explosivos? Eu já.. e não foi na guerra. As balas foram em um treinamento e a detonação em uma pedreira em que eu senti o chão tremer antes de ouvir o barulho. E em ambas as situações eu senti medo de perder o controle e sair do abrigo me expondo. Agora imagine isso  o tempo todo, todo dia, por muito tempo.

Imagine que não são só os que quiseram estar na luta que morrem assim, mas também civis, mulheres, crianças e animais. Morrem desesperados e gritando na sua frente e muitas vezes você não pode fazer nada e em outras, o que é pior, foi você que causou as mortes.

Penso que se você não for um psicopata ou um sádico, não iria gostar de estar nessa situação, que é bem diferente da maioria dos filmes e de todos os games, não é verdade?

Mas não me tome por um pacifista radical. Existem situações extremas nas quais temos que nos defender, como pessoas ou como povo, com ou sem armas. Porém, acredite, antes disso, é melhor, muito melhor buscar as causas do que pode nos ameaçar e resolvê-las pacificamente antes de um conflito. E isso, por sua vez, inclui entender, as vezes, a própria agressividade que trazemos dentro de nós e também, as vezes, as injustiças das quais consciente ou inconscientemente, somos beneficiários ou vítimas e buscar a solução sem violência.

Caso contrário, vamos nos tornando monstros insensíveis deixando nossos medos se transformarem em dor, a dor em ódio e o ódio em vingança que vai gerar mais medo e assim por diante, em um ciclo sem fim.

E acredite, isso é o inferno. E você acabará gerando e vivendo esse inferno para si e para os demais, sem mesmo precisar de uma entidade espiritual que muitos chamam de “demônios”.

Os demônios serão você e os outros. E o inferno e será a guerra.

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