Budismo VI – A Quarta Nobre Verdade. Por Luis Fernando Amstalden

Posted on 15 de julho de 2012 por

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O Buda Ensinando as Nobres Verdades

A quarta e última Verdade sistematizada pelo Senhor Buda, nas suas pregações, é chamada do “Caminho Que Conduz a Cessação do Sofrimento”, ou ainda: “A Senda Óctupla”. Parte dessa Verdade é bastante parecida com a de outras religiões. Trata-se da moralidade, da ética religiosa, do estudo e da sabedoria. No caso do Budismo, estes preceitos são em número de oito, daí o título de “senda”, caminho óctuplo que aquele que busca a Verdade e a Iluminação deve percorrer.

Os oito preceitos do Caminho, podem, por sua vez serem divididos em três grupos.

O primeiro grupo é chamado de “Sila”, palavra que pode ser traduzida como ética ou moralidade. Ele engloba três itens do Caminho: a Palavra Correta, a Ação Correta e o Meio de Vida Correto.

A Palavra Correta significa a linguagem que traduz honestidade, verdade, paz, carinho, consolo e sabedoria. Trata-se de não mentir, não agredir verbalmente, maldizer ou difamar. De procurar, através das palavras, levar o consolo, a compaixão, a harmonia e o amor a quem quer que se encontre ou conviva. De não destruir ou ferir através das palavras, mas sim acolher e construir.

A Ação Correta é a forma de agir amorosa, cuidadosa com todos os seres. Significa não usar de violência, não fazer mau uso das relações sexuais e também  o cuidado consigo mesmo, com sua saúde. Dentro da Ação Correta está, por exemplo, a proposta de não se fazer uso de substâncias tóxicas que perturbem ou retirem a consciência da mente.

O Meio de Vida Correto significa ganhar a vida de maneira ética, sem fazer uso de desonestidades ou exercer qualquer ofício que crie o mal, a dependência, a destruição. Também significa não viver do sofrimento alheio.

O Segundo Grupo é chamado de “Samadhi”, a Meditação ou a Disciplina Mental. Este por sua vez engloba, em primeiro lugar, o Esforço Correto, a busca esforçada de evitar os maus pensamentos, destruir aqueles já existentes (como os pensamentos de ódio, raiva, inveja, tristeza, desejo, etc). Também consiste em cultivar os pensamentos bons, tais como os de amor, compreensão, alegria, compaixão e desapego.

Aquele que realiza o Esforço Correto, necessita da Plena Atenção Correta, que é a constante percepção de nossos próprios pensamentos, sensações, reações, anseios. Sem esta atenção à sua mente, seu corpo, suas atitudes e suas sensações, não é possível despertar a mente e nem evitar o sofrimento, as ilusões e realizar o Esforço Correto, a destruição dos maus pensamentos e o cultivo dos bons pensamentos.

Por último, dentro do grupo do Samadhi, está a Concentração Correta, que por sua vez se liga aos itens anteriores. Não se pode realizar o Esforço Correto e a Plena Atenção Correta sem uma intensa concentração.

O último grupo da Senda Óctupla é chamado de “Sanna” – Sabedoria. E se divide em dois itens: Pensamento Correto e Correta Compreensão. Ambos estão ligados a investigação espiritual e mental. Dizem respeito a busca da sabedoria, da investigação sobre nós mesmos e o mundo e do estudo.

 Neste “Caminho Óctuplo” vemos exortações ao discípulo para que tenha uma vida regrada em todos os sentidos. Cuidar do corpo, zelar por uma conduta sexual correta, estudar os textos sagrados,  não mentir, não roubar, enfim, não fazer o mal ao próximo nem a si mesmo.

Três pontos, no entanto, distinguem mais fortemente as propostas budistas daquelas de outras religiões. O primeiro é o fato de que não há um dogma, uma verdade suprema a ser seguida cegamente. Ao contrário propõe-se a investigação e a prática. O segundo ponto é a ampliação do conceito de “próximo”. O Cristianismo também nos exorta a não fazer o mal ao nosso próximo,  porém, ele difere do Budismo pela noção de quem é esse próximo. Para o Budismo, toda vida, seja de um animal, de uma planta ou de um ser humano, é sagrada, devendo receber o mesmo respeito, sem distinção. Note-se que, inclusive, o caráter de não violência fica ainda mais forte no pensamento 0,budista. E o terceiro ponto é a ênfase dada a investigação através da meditação.

Podemos afirmar, sem medo de exagero, que o cerne do Budismo, e boa parte do seu fascínio, é exatamente a disciplina de meditação. Tal disciplina varia de escola para escola, de ramo para ramo, mas tem sempre alguns objetivos comuns. Primeiro: tomar consciência do que se passa por nossas mentes. Segundo o Senhor Buda, nossos pensamentos são comparáveis a um macaco que pula de árvore em árvore. Nunca se aquieta e nunca para em nenhuma. Ora, meditar é, antes de mais nada, observar nossos pensamentos, sensações e percepções, sejam elas agradáveis, desagradáveis ou neutras. E ainda mais, sem julgá-las, repelí-las ou negá-las.  Sentado, caminhando, em repouso, trabalhando ou no lazer, sempre estamos meditando, ou deveríamos estar, na medida em que a meditação é a percepção profunda de nós mesmos. Chama-se a isso, esta percepção, de “Mente Consciente”. E o seu princípio é bastante simples, porém a sua prática nem tanto. No próximo artigo, falaremos mais da Mente Consciente, talvez a parte mais importante da Quarta Nobre Verdade.

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