Um Dia. Por Rebeca Serrano

Posted on 8 de outubro de 2012 por

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Ela caminha com passos largos e rápidos. Desde quando consegue se lembrar gosta da idéia de chegar mais rápido e isso lhe satisfaz. Após alguns anos seguindo uma rotina suportável e poucas vezes interessante, já conhece as lojas e algumas pessoas sabem seu nome. Atravessa a rua com agilidade de quem já internalizou a experiência urbana, de pessoas sem rosto e contatos físicos incômodos.

Ao olhar no espelho, antes de sair de casa, sente o choque de seus olhos com manchas roxas, e as linhas de expressão que começam a surgir, finalmente. Há pouco tempo entende que a vida de criança, que nunca possuiu inteiramente, está acabada. Seus olhos são profundos, tristes, mas ao fingir um sorriso depois de prender o cabelo civilizadamente, respira fundo e sabe que está pronta para mais um dia.

O caminho é rápido, assim como seu pensamento. Não pára nunca de imaginar pessoas, hipóteses, resoluções de problemas. Às vezes sente-se cansada, mesmo após dormir bastante e não se recordar de seus sonhos. Depois de todos estes anos, a familiaridade é consoladora: seus amigos já a conhecem, e no trabalho pode ser qualquer pessoa. A menina-mulher sente-se uma farsa. Farsa bem arranjada, com sorriso brilhante e bons modos. Tem dentro de si uma certeza arrogante: depois que domina um ambiente e suas relações pessoais, pode adequar-se perfeitamente a ele. O que ninguém sabe é o quanto dói a angústia de ser nova em algum lugar. De ter que se provar o tempo inteiro. Mas por enquanto ela consegue.

Ao passar por aquela porta, sua expressão muda. Pura relação de troca. Age com movimentos frios. Sorri quando necessário. Sua postura é impecável. Tem um “que” de insatisfação, que pode ser percebido somente por algumas criaturas que cruzam o seu caminho em dias e horários específicos. Quando isso acontece, sente que ainda existe esperança. Que talvez não seja tão ruim assim. Ruim mesmo, porque ela tem dentro de si uma ruindade incontrolável, não sabe explicar e que aparece algumas vezes aos rompantes. O que não entende é porque tem toda essa agressividade guardada, que aprendeu a descarregar em longas caminhadas solitárias.

Pouco antes de o trabalho acabar, tarde da noite, tem fome e se imagina comendo todas as coisas do mundo. Tem na vida outro problema: se sabe o que quer nada lhe faz mudar de idéia. Entretanto, na maior parte do tempo não consegue escolher porque precisa de clareza. A impaciência chega e os minutos não passam. Vai sentindo a raiva, aquela que a faz apertar os dentes, até que o relógio lhe avisa que o tempo acabou. Está livre.

Quando chega em casa, corre pelas escadas. Também quer que o tempo não passe tão rápido, para que o amanhã não chegue e tudo seja igual de novo. A sala lhe é familiar; a sensação do vento batendo em seu rosto lhe agrada e o céu estrelado lhe consola. Aprecia especialmente os dias de vento forte, e tem um segredo: quando vem uma tempestade, deseja sentir a violência da natureza em seu corpo.

Pensa em sua vida, no fim de semana por vir, nas obrigações a cumprir e sabe que só é mais uma pessoa lutando diariamente para sobreviver. Sabe que tem privilégios, e a visão da desigualdade lhe perturba profundamente. Tem a certeza de que pouco falta para enlouquecer, como aqueles senhores que andam pelas ruas sem destino, murmurando palavras incompreensíveis. Mas ainda pode continuar tentando, usando o mesmo sorriso, mantendo a mesma postura. Pelo menos pode se consolar com a comida e pode se dar ao luxo de momentos compulsivos. Sim, ela também é levemente compulsiva. Sente uma faísca de felicidade ao possuir certas coisas. Ao mesmo tempo, nada lhe satisfaz.

Na cama gosta de ler. Desligar sua mente de si mesma. Mas o cansaço é grande e o sono a domina. Quase sempre dorme com a luz acesa. Não tem quem a desligue. Em sua rua habita um galo descontrolado. Canta em horários variados a mesma melodia triste. Ela o acha tremendamente irritante. Dorme novamente, intranqüila, porque tem medo do amanhã. Sabe que só pode depender de si mesma, e somente tem uma vaga ideia de quem ela própria é.

O relógio toca. Susto, resignação. O despertar é violento e traz lembranças demais. Ela caminha com passos largos e rápidos. Talvez o novo dia lhe reserve uma surpresa. Um resquício de esperança. Senta-se em sua cadeira. Veste o seu melhor sorriso. Outro dia.

Rebeca Serrano é Socióloga e Professora.