Coluna do Totó. ANTONIO

Posted on 14 de junho de 2013 por

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Na véspera do dia de Santo Antonio, após o terço diário, começava o foguetório. Embora pobres, meu pai achava um jeito de providenciar a munição. Era o busca-pé estourando nos pés de algum lerdo; a bombinha, que a gente punha debaixo da latinha de massa de tomate até sair o fundo. O traque, também chamado ‘peido-de-véia’, que tinha um barulho ardido. O fósforo de cor era o mais bonito; girávamos o palito aceso formando círculos coloridos. As festas em honra ao santo pipocavam pelos sítios e a singela Piracicaba, que parava para comemorar seu ilustre padroeiro. Não me esqueço da procissão nas ruas do Centro animada pela banda União Operária.

Na adolescência Antonio virou o meu santo companheiro. Tudo falava para ele, principalmente minhas dificuldades e problemas. Pedia-lhe muitos favores, não me lembro de ter ficado na mão. Um dia comprei uma revista que contava sua vida.

O nome dele era Fernando de Bulhões y Taveira de Azevedo. Nasceu em Lisboa em 1.195. Desde pequeno se sentia atraído para as coisas mais elevadas. Aos 15 anos entrou para a congregação dos agostinianos. Ali Fernando dedicou-se profundamente aos estudos e à meditação. Porém seu coração não estava contente. Queria mais. Em 1.220 viu passar por Portugal os corpos de cinco franciscanos martirizados no Marrocos. Ficou profundamente abalado e comovido. Entrou para a Ordem de São Francisco com o nome de Antonio Olivares. Tentou ir também para Marrocos, mas Deus queria dele muito mais que martírio.

Morou no convento dos franciscanos em Messina, cujo prior o levou a Assis para o Capítulo Geral em 1.221. Lá conheceu Francisco de Assis, que depois o chamaria confidencialmente de “meu bispo”, pois além de sacerdote, seu conhecimento teológico e bíblico era admirável, tanto que foi autorizado a instruir os frades.

Foi designado para a província franciscana de Romagna num convento perto de Forli onde desempenhava as funções de atendente, porteiro e cozinheiro. Viveu na obscuridade até que seus superiores notaram seu extraordinário dom da oratória. Certa vez numa ordenação que acontecia na catedral da cidade, o pregador não pode ir, sobrou para Antonio substituí-lo na explicação do Evangelho. Acharam que seria um fiasco. Porém, pasmos ficaram com o que saia da boca daquele franciscano de tosca aparência.

Enviaram-no então ao norte da Itália e França a fim de pregar onde a heresia dos albigenses era mais forte. Seu linguajar claro e contundente abalava costumes e doutrinas tanto dentro como fora da Igreja. Foi chamado de martelo dos hereges.

Teve finalmente morada fixa no convento de Arcella, perto de Lisboa. Dali saia a ensinar onde fosse chamado. Em 1.231 sua pregação atingiu o ponto máximo de intensidade principalmente na defesa dos pobres e no ataque impiedoso à injustiça social, à usura e à ganância, o que lhe valeu perseguições e ciladas.

Pediu e foi feita uma casinha de madeira sobre a copa de uma árvore para se dedicar mais à oração. Contudo, sua saúde sempre frágil devido à hidropisia e aos constantes sacrifícios que se impunha, foi atingida por uma doença inesperada e morreu em Arcella a 13 de junho de 1231, com 36 anos. Olhando para o céu, suas últimas palavras foram “Finalmente te vejo!”. Foi sepultado com honras de cavaleiro e multidões clamaram por sua canonização, que ocorreu já no ano seguinte.

A maior luta de Antonio foi contra a injustiça social, cada vez mais presente em Piracicaba, que aos poucos perde sua identidade pacifica, seu encanto e se distancia de seu protetor; tanto que nem guarda mais seu dia. Seu padroeiro agora é o dinheiro; atrás dele vai grande procissão guiada por políticos picaretas, empresários sem escrúpulos e uma Igreja insossa. Se continuarmos nesse caminho, Antonio será para nós nada mais que uma estátua de barro ou um mastro erguido na Praça da Catedral.

Antonio Carlos Danelon, o Totó, é assistente social. totodanelon@ig.com.br