Palestra e Convite

Posted on 14 de julho de 2013 por

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palestra

Quando eu era jovem, na década de oitenta, fiz parte de um grupo de jovens que se reunia na Igreja dos Frades Capuchinhos, em Piracicaba. Naquela época, de abertura política e de redemocratização da sociedade, vivíamos um torvelinho de idéias e propostas, muitas das quais ingênuas, é verdade, mas cheias de entusiasmo e vontade de criar um mundo melhor. Nosso grupo, no entanto, tinha algumas características diferentes. Nós não éramos somente um grupo católico, mas sim aberto e, com isso, tínhamos a participação de jovens que pertenciam à outras religiões, tais como metodistas, espíritas e outras, além de jovens que não tinham mesmo uma religião definida. Isso, no entanto, não fazia muita diferença, uma vez que o que nos unia era a vontade de ver uma sociedade diferente, mais “carinhosa”, mais justa e honesta. Logo não importava muito a que tipo de credo ou dogma cada um obedecia, desde que o diálogo fosse aberto e em direção às nossas buscas.

Também não tínhamos exatamente uma atividade pastoral direcionada. Ou seja, não cantávamos nas missas e nem estávamos submetidos à direção de autoridades religiosas que definiam o que deveríamos discutir e fazer. Ao contrário, com o apoio dos frades capuchinos da época, em particular do Frei Augusto Girotto (já falecido), tínhamos liberdade para debatermos assuntos diversos, o que fizemos muito, tais como sexualidade, racismo, política, sociedade, meio ambiente e outros. Tínhamos também liberdade para tentarmos as ações que o grupo achava válidas e, dentre outras, fizemos algumas atividades junto as crianças do Lar Franciscano de Menores, além de termos participado ativamente do movimento das “Diretas Já”. Mas, verdade seja dita, o que mais fizemos foi debater, pensar, discutir e ler. Tínhamos até uma coleção de livros que mantínhamos em comum e emprestávamos aos membros do grupo para seu aprendizado. Erramos muito, com certeza, mas penso que nosso principal acerto foi o do nosso próprio crescimento, que, mais tarde, pode se transformar individual e coletivamente, em ações mais diretas por parte de cada um. Enfim, eu diria que começamos, naquela época, a construir um mundo melhor construindo primeiro, nossos próprios valores e autonomia intelectual. Até onde sei, nenhum dos membros do grupo deixou de praticar estes valores até hoje.

Sendo franco, também incomodamos muita gente na época. Católicos mais conservadores não aceitavam nossa liberdade e nem nossa autonomia para os debates. Por duas vezes, fui questionado por pessoas assim por ter convidado palestrantes não católicos a conversar conosco. Engraçado que nenhum dos dois falou sobre religião, mas sobre educação e sociedade. Mesmo assim, um “santarrão” veio me “puxar as orelhas” pelos convites. Mais tarde, quando Frei Augusto foi transferido para outra cidade e o bispo da época foi substituído, acabamos perdendo nosso espaço. Foi triste sim, mas também já estávamos quase todos seguindo nossos caminhos estudantis e profissionais, daí ter o grupo atingido seus objetivos. A nossa “exclusão” só acelerou o final natural do grupo, mas seus efeitos permanecem em nós até hoje.

Agora, tive a honra de ser convidado para ministrar uma palestra aos jovens que se preparam para a Jornada Mundial da Juventude que ocorrerá no Rio de Janeiro. Eu vou. Os tempos são outros, a juventude é outra e, com certeza, a Igreja Católica também é diferente daquela em que eu militei ativamente. Isto faz parte da vida, a mudança constante, mas vou na expectativa de que não tenha mudado o desejo de um mundo melhor, mais justo e harmônico que nos orientava quando eu era um jovem. Não sei se será bom, isso depende de tanta coisa fora do meu controle. Mas espero repassar aos jovens um pouco daquelas idéias tão caras que nos formaram na época. O resto é com eles.

 

Se você quiser, apareça. Até onde eu sei é um evento aberto, mesmo que você não seja mais jovem (assim como eu) acho que será aceito. Se você não for católico e quiser ir, acredito que pode também. Se os cristãos acreditam que Deus é amor, então não devem fechar suas portas a ninguém, independente do seu credo.

Será no Santuário Nossa Senhora dos Prazeres, na Rua Virgulino de Oliveira 70, na próxima terça feira, as 20:00 hrs.

Abraços.

Amstalden