Paris e a Disneyworld. Por Luis Fernando Amstalden

Posted on 24 de julho de 2013 por

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Aconteceu em uma drogaria onde minha esposa trabalhava. Um homem de meia idade, mas vestido no estilo “garotão”, desce de um carro importado e adentra à loja. Aproxima-se do balcão e diz: “voltei de viagem e estou resfriado”. E minha esposa: “e o senhor está sentindo exatamente o quê?”. O cliente, ao invés de dizer o que sentia, respondeu: “eu viajei para a Europa, sabe?”. Qualquer um que trabalhe com comércio sabe que é preciso dar atenção ao cliente e, numa farmácia, as vezes, isso significa ouvir longas histórias de doenças e até problemas familiares. Mas aquele homem não queria nada disso, queria dizer para todo mundo que ele havia estado na Europa. Bem, não é o tipo de atenção mais comum que se pede de um farmacêutico, mas, enfim, minha esposa, diante do silêncio do “viajante” que não se dispunha a dizer o que sentia, não teve outra escolha além de mostrar-se “impressionada” e então falou: “ah, e o senhor esteve em que país da Europa?”. O homem, entusiasmado enfim, respondeu: “Estive em Paris!”. E minha esposa: “mas… Paris é uma cidade, não um país…” O “turista” hesitou: “Ah, é… bom, que país é lá mesmo?”

Talvez tenha sido somente um evento de “novo rico”, de alguém que tenha ganho dinheiro mas não tenha lá muita cultura. Acontece. Muita gente não teve tempo de estudar, trabalhou, ganhou dinheiro e na hora de usufruir um pouco acaba esbarrando na cultura que lhe falta. Mas não posso deixar de pensar que há, neste fenômeno, mais do que a falta de cultura de um trabalhador bem sucedido. Há algumas características do nosso tempo, da sociedade e da cultura em que vivemos e que alguns chamam de “pós moderna”. A primeira característica é a do cultivo de uma imagem sem substância. Para aquele homem, tanto fazia saber o país onde esteve, mas sim que os outros soubessem que ele esteve fora do Brasil. Não se trata de partilhar uma experiência agradável e entusiasmante, mas de construir uma auto imagem de alguém que pode ir ao exterior, particularmente à uma cidade chique, como Paris. Isso fica evidenciado não somente por ele não saber que Paris é a capital da França, mas pela sua insistência em falar que viajara, deixando de dizer o principal, o que sentia para que pudetsse ser aconselhado sobre o remédio que poderia tomar ou se deveria procurar um médico. Tudo isso é menos importante do que construir sua imagem social de alguém economicamente superior, que pode viajar.

A segunda característica dos nossos tempos é um certo desinteresse pelo conhecimento (que aliás eu vejo muito nas salas de aula), uma superficialidade para a qual não interessa realmente uma maior noção de onde se está e até do que significa aquele lugar, mas apenas o fato (raso) de ter estado lá e, principalmente, dizer isto aos demais. Paris é uma cidade riquíssima em história, cultura, arquitetura e outras belezas. É uma cidade na qual a cada quadra andada pode-se visualizar uma obra de arte e/ou um lugar relacionado a um personagem ou um fato histórico. Quando penso em visitar a cidade (e de resto muitos outros lugares na Europa e em outros continentes), fico imaginando o quão “saboroso” seria ver tais lugares e “sentir” todo aquele “clima”. Outras pessoas que conheço pensam o mesmo. Uma ex aluna minha contou que chorou ao ver, no museu do Louvre, um quadro que sempre admirara. Isso é, a meu ver, a verdadeira experiência de estar em um lugar diferente, de viajar, de conhecer outros lugares.

Mas na nossa sociedade este comportamento não é regra, é exceção. Quer um exemplo? O maior destino turístico dos brasileiros que viajam ao exterior hoje, é os Estados Unidos. E lá, o desino específico mais procurado é a Disneyworld. Oras, a Disneylândia é apenas um parque de diversões mais elaborado, sem história, sem cultura, sem “substância”. Um aglomerado de brinquedos, muitos dos quais de impacto, como montanhas russas, que apenas provocam descargas de adrenalina. Lá nada é natural ou humano. Tudo é plástico, aço, vidro e ilusões infantis. É um bom lugar para crianças, mas não necessariamente para adultos, mas o número de turístas lá é grande demais para ser apenas de pais acompanhando seus filhos. E aqui temos uma terceira e triste característica da nossa época: a infantilização do comportamento. Ser adulto, ser mais interessado em coisas de adulto, parece ser ruim, pesado, chato. Daí é melhor ir a lugares de hiper consumo ou de ilusões (que no final dá no mesmo) do que ir a um lugar de “gente grande”. Adultos se interessam por coisas mais sérias, pela natureza, pela arte. Pelo menos em tese, eles são capazes de perceber estas belezas que, muitas vezes, uma criança não é. No entanto, milhões de “adultos” no mundo todo tem se infantilizado a ponto de, entre escolher entre uma refeição num pequeno restaurante parisiense com uma culinária típica ou um hambúrguer no Mcdonalds; escolhem a segunda opção. Este comportamento infantil, por sua vez, tem uma razão “prática”. Ele é incentivado pela propaganda para a criação de hiper consumidores. Acontece que um adulto, de novo em tese, pode apreciar muitas e diferentes belezas sem comprar coisas, mas uma criança não tem esta mesma percepção. Ela é mais facilmente atraída por bobagens coloridas do que por uma bela paisagem. Daí, para as grandes indústrias e suas agências de publicidade, é uma boa idéia transformar adultos em crianças que escolhem a Disney e não sabem qual a capital da França.

Eu não sei se aquele homem apreciou Paris. Talvez até tenha apreciado, mas sua ignorância me dá a certeza de que ele poderia ter apreciado mais e, talvez, tivesse até preferido a Disneyworld. De minha parte, digo-lhes uma coisa: a última vez em que eu viajei e não sabia onde estava, é porque eu estava perdido.

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