Algumas palavras sobre o que fui, fiz e por onde andei. Por Adalton Batista.

Posted on 31 de julho de 2013 por

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Adalton Batista e sua esposa Neuza em Veneza

Adalton Batista e sua esposa Neuza em Veneza

Em uma época em que os jovens parecem estar redescobrindo o interesse pelas coisas coletivas e, quem sabe, questionando o mundo seguro e falso do consumismo, , o médico e músico Adalton Batista, que hoje vive e trabalha na Europa, nos conta trechos de sua história de estudante pobre no Brasil da ditadura, que vai viver e estudar em Portugal. Neste texto, que será publicado em partes, se cruzam as situações, os anseios, os personagens e as emoções e experiências de um jovem brasileiro buscando seus caminhos. Aproveite. Lembre-se de que cada vida é uma experiência única e, conhecer outras vidas, nos leva a ampliar a nossa experiência.

Segue o texto de Adalton.

 Algumas palavras sobre o que fui, fiz e por onde andei.

A infância e juventude ficara para trás. Corria o ano de 1972. Tinha 23 anos de idade. Saíra de casa em 1967/1968. Trabalhava de dia e fazia Faculdade à noite. Já não conseguia emprego pois estava na lista negra das empresas. Podem crer que tal situação, existia realmente. Tinha desacatado o anterior Presidente do Banco Central, agora presidente da empresa onde trabalhava, chamando-o de mentiroso. Tiro e queda. Fui despedido compulsivamente. Ele não suportou ser chamado de mentiroso por um rapaz de 21 anos e não perdoou isso, daí a entrada na malfadada lista.

Vinha de uma família simples, mas com os conceitos de vida bem arrumados. Meu pai de origem Mineira e minha mãe Italiana. Apesar da origem humilde era querido na cidade por ser muito bom estudante no colégio local; regular jogador de futebol e junto com dois amigos, cantarmos e fazermos música. Tínhamos ganho o Primeiro Festival do Interior do Estado de São Paulo de MPB com 16/17 anos. Numa cidade pequena do interior essas três situações, estudo, futebol e música, contam muito e podem fazer toda a diferença ao nosso crescimento. Com a vitória no Festival fomos convidados a nos apresentar num famoso programa da época: ”Um Instante Maestro” do Flávio Cavalcante. Foi aí, nos estúdios de TV Tupi, canal 4 que conhecemos a Gal Costa no esplendor da sua juventude. Nossa música era de protesto em relação ao Nordeste, mas correu tudo mal. Quando fomos anunciados entramos só dois e o nosso nome por brincadeira, era Trio D-3. O Flávio logo glosou. Então um trio D-3 de dois! Éramos muito jovens e não tínhamos presença de palco para ripostar à altura. Onde estava o terceiro elemento? Conversando com a Gal. É por isso que brinco que ela destruiu a minha carreira musical. Cantamos metade da música só em dois. O terceiro quando foi avisado entrou intempestivamente, tropeçou e quase caiu no palco. Risada geral. Até nós. Como é que depois disso tínhamos condições para fazermos boa figura!

No princípio desse ano de 1972, os amigos da República onde vivia me falaram de um anúncio na televisão sobre estudar no estrangeiro e principalmente em Portugal. Um dia passando em frente ao Consulado Português na Avenida da Liberdade em São Paulo, lembrei-me do assunto e entrei para perguntar que cursos ofereciam. Deram-me uma lista e dos cursos indicados o de Medicina melhor se enquadrava no meu perfil. Fiz a inscrição e esqueci do assunto. O dia-a-dia pela sobrevivência, consumia toda a minha atenção. Era uma época em que a gente vivia apenas para o momento. As variáveis eram tantas que não valia a pena pensar e analisar. Apenas sonhar.

Em Novembro desse ano fui convidado para fazer a música de uma peça que apresentariam na Faculdade.

O espetáculo ia a meio quando a polícia irrompeu pelos corredores. Gritaria geral. Foi o fim da apresentação.

Tinham me pedido para fazer a música e cantá-la. Não fui aos ensaios, nem sabia de nada do que ia acontecer. Apenas sabia do tema para ajustar a letra com a música. A Vergonha. Acrescentei Criação de Monstros. Foi usado um artifício teatral inovador na época de luzes e sombras. Foi muito bonito e chocante. Era esse o objetivo.

Foi melhor conseguido devido ao aparecimento da polícia.

Alguns dias antes recebera um telegrama dizendo para comparecer no Ministério dos Estrangeiros em Lisboa no prazo de uma semana, senão perdia a vaga. Os acontecimentos recentes desencadearam e impulsionaram a saída do Brasil. Esses acontecimentos acrescentados à vida que progressivamente foi ficando mais difícil, pois por não ter dinheiro tive de sair da República e fui morar no “Treme-Treme”, um prédio de prostituição muito conhecido da Baixada do Glicério no centro de São Paulo.

Também já não pagava a Faculdade. Quantas vezes almoçava bombons “Sonhos de Valsa”. Eram quatro por um cruzeiro.

Mesmo assim, nem sequer passou-me pela cabeça como é que eu ia conseguir sobreviver e estudar no estrangeiro.

Como disse atrás continuava a viver o momento. Se pensasse não ia. Fui até Sorocaba uma cidade perto de São Paulo falar com meu irmão mais velho. Ele nem pestanejou e se propôs a comprar a passagem em prestações. Pagou durante dois anos. Nunca pediu a restituição do dinheiro nem sequer falou do assunto. Por sorte já tinha o passaporte, senão já não conseguiria obtê-lo.

Os amigos fizeram uma rifa de um aparelho de som e foi com esse dinheiro que que sobrevivi no primeiro ano da faculdade.

“Amigo é coisa prá se guardar no lado esquerdo do peito”…

É verdade. É o maior crédito que podemos ter. Antes mesmo de terem vendido todos os números da rifa, deram-me o montante na globalidade, pois o tempo era curto.

São os amigos da infância com os quais fazia música e cantava e de quem tenho muitas recordações boas e muitas histórias.

Fui também falar com o Prefeito da minha cidade pedindo ajuda. Pagaria quando terminasse o curso e começasse a trabalhar, mas foi negado. Justificou com a crise nas contas públicas da Prefeitura mesmo sabendo que o que eu precisava e pedia era apenas uma gota d’água.

Foi triste a despedida no Aeroporto de Congonhas. Ainda não havia Guarulhos. Na hora do lenço branco toda gente chorou. Minha mãe foi ao aeroporto. Do meu pai não me lembro. Foi assim que deixei para trás a infância, a juventude e o começo da vida adulta. Foi o Fim da Inocência, como disse numa música, contando a história de todos nós.

(continua)