O Papa e os Políticos. Por Luis Fernando Amstalden

Posted on 1 de agosto de 2013 por

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Ainda é cedo para dizer qual será o resultado do pontificado de Francisco I e mesmo se haverá alguma grande renovação na Igreja a partir deste pontificado. Até agora, porém, desde sua eleição até esta recente visita ao Brasil na Jornada Mundial de Juventude, os sinais são aqueles que eu considero “bons”. Aparentemente haverá um esforço deste Papa (e digo “haverá” porque como já afirmei é cedo para se ter certeza) em retomar uma aproximação entre a cúpula da Igreja e a população católica com suas necessidades e desejos. Também, aparentemente, haverá um maior esforço no sentido de corrigir alguns graves erros, tais como os escândalos financeiros e sexuais perpetrados por clérigos, incluso aí os casos de pedofilia. Por último, a julgar pelos seus discursos, Francisco quer uma retomada da preocupação e das ações da Igreja em relação aos mais pobres e fracos, embora como isto será realizado ainda não seja claro, pelo menos para este articulista.

Mas, se há algo que ficou bem claro foi a insistência de Francisco em demonstrar algum desapego e simplicidade. Começa pelos carros que usou. Um deles é um modelo mais simples de veículo, que, embora não chegue a ser um “caro popular”, tampouco é um carro de luxo. O chamado “papamóvel”, o carro aberto que transportou o Pontífice em trajetos junto à multidão, também era diferente de seus antecessores. Não era um veículo cercado de vidros a prova de balas, mas aberto, e, de qualquer modo, o Papa simplesmente desceu do mesmo mais de uma vez para ir até ao povo, logo não adiantaria nada serem blindados os vidros. Claro que isso foi perigoso. Existem pessoas desequilibradas em qualquer lugar do mundo e uma delas poderia ter estado lá e tentado agredir Francisco. Imagino que os seguranças dele devem estar, agora, todos com um começo de úlcera nervosa, tanto pelas “descidas” do “papamóvel” quanto pelos vidros abaixados do outro carro.

No entanto, independente do risco corrido, houve algo de muito bom nestes gestos. Uma aproximação física dos fiéis, com a conseqüente exposição de sua pessoa, significa também uma aproximação emocional, psicológica e humana. Ao descer do veículo Francisco se arriscou sim, mas também se aproximou do povo que quer liderar na religião. Um ato político, dizem alguns, e eu concordo. Claro que foi um ato político, o Papa é um político na medida em que é um líder religioso (para não dizer um chefe de Estado), que dirige milhões de católicos no mundo todo. Isso faz dele um líder político no sentido mais amplo do termo “política”. Assim, quando ele se aproxima fisicamente da multidão, está realizando um ato também político e com um significado, o significado da reaproximação, do encontro, do diálogo. Este é o simbolismo do gesto, pelo menos.

Agora, o que me chama a atenção de maneira muito forte é a contradição entre tais atitudes do Papa e as dos políticos brasileiros em geral. Enquanto Francisco, que  bem ou mal lidera milhões, andou de carros simples, chegou perto do povo e ainda escolheu hospedagens simples, os nossos “líderes” fazem o inverso. Circulam com carros de luxo, voam em aviões públicos sem pagar, se hospedam em hotéis de luxo e, claro, defendem com “unhas e dentes” seus subsídios. Pior um pouco. Nossos “líderes”, em particular depois das manifestações de junho passado, andam arredios, se fechando em locais “fortificados” e até evitando um pouco a aproximação com o povo. Aqui em Piracicaba, por exemplo, a Câmara dos Vereadores mandou instalar uma grade de ferro na sua entrada, endureceu o controle de quem entra e sai e está instalando mais câmeras de segurança. A justificativa é a de que isso visa proteger o “patrimônio público”, mas eu penso que é um gesto de temor e um gesto político ao mesmo tempo.

Temor porque os protestos recentes demonstraram o nível de insatisfação do povo com os políticos e também com nossos vereadores. No nosso caso existe ainda a questão polêmica do aumento dos subsídios dos edis que não tem o apoio popular. Assim, diante de tanta insatisfação, é natural que os políticos estejam temerosos. Por outro lado, o interessante é o significado “político” do seu gesto Ao contrário do Papa (que, diga-se de passagem, também enfrenta uma onda de insatisfação católica, demonstrada pelo número de pessoas que passam a outras religiões) os políticos não me parecem estar fazendo esforços no sentido de se aproximarem da população. Isolados fisicamente e protegidos por grades, câmeras e até policiais, estão no sentido inverso da política de Francisco. Estão criando nichos seguros dos quais pretendem continuar na mesma linha de ação. Tampouco estão demonstrando o desapego e a simplicidade ou o interesse prioritário pelos mais fracos e pobres, além da vontade de dialogar que Francisco parece demonstrar. Se estivessem, talvez não precisassem ter medo e nem precisassem das grades e câmeras.

Tanto o Papa quanto nossos líderes estão tomando atitudes políticas. O tempo e o povo vão dizer qual deles está fazendo a opção mais correta.

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