Coluna do Totó. FUNDO DO POÇO

Posted on 15 de agosto de 2014 por

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Cidadãos reclamam do abandono das praças em Piracicaba, especialmente a central tomada por moradores de rua, lixo e mato; piso e bancos imundos; cachorro quente e pipoca em meio à bosta de pombos.

Já que uma coisa puxa outra, se as praças estão largadas por que não podem ser ocupadas por desocupados? Para que sevem se a prefeitura não tem programas de lazer e cultura no Centro e nem nos bairros onde quase todo mundo ergueu seus muros, botou cerca elétrica, interfone e portão de chapa justamente para não ver a cara de ninguém? Preferem televisão, computador a conversar com vizinhos e brincar com as crianças. O tal do progresso que trouxeram deu nisso: cada um pra si e Deus pra ninguém, já que Ele não vive entre egocêntricos.

Por outro lado, ninguém é obrigado a trabalhar, constituir família, ter casa, celular, conta em banco, etc. Só que regras existem para todos já que viver em sociedade requer disciplina e organização. Direitos acarretam deveres. Se temos que responder por excessos, essas pessoas também. Principalmente quando têm a disposição serviços de abrigo e meios para deixar as ruas se quiserem. Neste aspecto o poder público deve ser intransigente, afinal não tem como dar razão a quem desdenha a própria dignidade.

Até onde sei, Piracicaba há algum tempo se adequou à legislação SUAS no que tange à política para morador ou pessoa em situação de rua. Existe uma equipe especializada, que diariamente aborda essas pessoas oferecendo-lhes os serviços. Tem Casa de Passagem com pernoite, Albergue Noturno para (i) migrantes, Centro POP onde o usuário tem a sua disposição atendimento psicológico, alimentação, vestuário, banho, cuidados médicos, colocação em empregos e até retorno à origem e o NAS, que serve de abrigo aos que perderam os vínculos com familiares e parentes.

Há, portanto, uma boa estrutura. Contudo, é recusada pela maioria. Seria por que sua gratuidade não agregue valor ou por evocar experiências negativas; por terem regras ou porque aceitar ajuda signifique capitulação no propósito de punir a si mesmo ou alguém de quem carregue dores afetivas; ou porque a ‘caridade’ de ‘abnegados voluntários’ minem o sistema? Difícil entender a opção pelo relento tendo disponível um canto melhor. Talvez para muitos a ferida que carregam na alma seja mais dolorida que a dureza das ruas, portanto um lugar confortável nada acrescenta. Pode ser que não queiram retomar padrões sociais que os segregou ou perder o incomodante status de marginalizado, amenizador ilusório da carência afetiva. Afinal entre iguais ninguém enche o saco. “(…) a ‘família cracolância’ te recebe de braços abertos. Fora uma rixa ou outra, todo mundo aqui é irmão no sofrimento, então a gente se ajuda”. (Marcos Paulo dos Santos, 32 anos vive na região da cracolância em São Paulo há dois anos).

Quem se não eles mesmos podem descer ao profundo de suas almas em busca de respostas? “Foram cinco vezes [internações]. A única que deu certo foi a última, quando fui por conta própria. Me livrei [do vício] só quando fiquei num lugar que me mostrou que, antes do vício, eu tinha conflitos internos, familiares. Tratei disso e parei com o crack”. (Adriano Camargo, educador, 36 anos. Folha 22.01.13).

Penso ser preciso chegar ao fundo do poço para se encontrar e se resgatar. Esse dolorido processo é intransferível e muitos estão a caminho. Essas pessoas não são somente vitimas. São também protagonistas de seu sucesso e de seu fracasso. Interromper essa trajetória é o mesmo que provocar aborto. Precisam, portanto, mais de ouvidos que de compaixão e dó. Passar a mão na cabeça, dar cobertores e marmitex, além de ‘ajudar’ mais quem dá do que quem recebe, só pioram as coisas.

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