Coluna Somos Pop. Os Proibidos. Por Maxx Zendag

Posted on 31 de maio de 2015 por

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Maxx Zendag 2015

AVISOS: 1. Devido ao conteúdo impróprio das músicas que são o tema desse post, ele não acompanha vídeo. 2. Nenhum artista ou gênero musical sofreu maus-tratos durante a produção desse texto.

Com 49 anos de idade e 38 de carreira, a cantora-compositora islandesa Björk é conhecida por seu timbre de voz incomum e estilo musical eclético. Ela foi vencedora do Polar Music Prize (conhecido como “o Oscar da música”), já ganhou 4 prêmios BRIT Awards e recebeu 13 indicações para o Grammy, 2 para o Globo de Ouro e 1 para o Oscar.

Há sete anos, Björk gerou controvérsia na mídia quando agrediu um fotógrafo em um aeroporto da Nova Zelândia. Algo que passou despercebido para a maioria dos brasileiros. Mas se, até hoje, você ouviu pouco ou quase nada sobre essa exótica artista, agora a conhece pelo feito memorável do último dia 15 de maio. Ela, que já regravou “Travessia” do Milton Nascimento, resolveu atacar de DJ na festa comemorativa dos 5 anos da gravadora TriAngle Records e, em seu set, teve música brasileira, sim: “Sabe Que Dia É Hoje”, do funkeiro-mirim MC Brinquedo! Mais chocante que isso, foi o comentário da própria Björk ao divulgar o setlist completo aos fãs: “Coloquei junto algumas das minhas batidas preferidas do ano passado com alguns dos meus vocalistas favoritos cantando suas melhores canções.”

Não vamos nos precipitar e questionar, aqui, o gosto musical da cantora. Ainda que Björk já tenha gravado canções de conteúdo polêmico e videoclipes idem, arrisco dizer que ela provavelmente não fazia a menor ideia do que dizia aquela letra de funk. O fato de um som, que muitas pessoas não gostariam ouvir na casa do vizinho, ser ouvido e admirado do outro lado do mundo, dividiu opiniões. De um lado, as vozes que reafirmam o funk como manifestação genuína da cultura brasileira, injustiçada pelo preconceito às suas origens; do outro, os que abominam totalmente esse gênero musical, argumentando a sua natureza por vezes apelativa e inadequada para menores de idade.

É preciso abordar de forma séria essa bipolaridade musical que vivemos em nossa sociedade. Todos fomos jovens um dia, e já tivemos gostos musicais contrários aos dos nossos progenitores – ou até mesmo condenados pelos mesmos. A Jovem Guarda já foi alvo de críticas, à sua época, quando pais conservadores não se conformavam em ver seus filhos copiarem as roupas e “gírias” de seus ídolos – era inadmissível que uma garota usasse calças, por exemplo. Só que isso é bem diferente de criticar o conteúdo obsceno de muitas das músicas de funk que são ouvidas até mesmo pelas crianças – que copiam as coreografias igualmente impróprias. E quando uma menina de oito anos ganha status de “celebridade-mirim” cantando letras adultas, não é exagero afirmar que estamos chegando ao fundo do poço.

Num tempo em que se discute fervorosamente a redução da maioridade penal, sinto um profundo alívio ao ver que o Ministério Público agiu com rapidez, no sentido de abrir uma investigação sobre os funkeiros mirins e a sexualização de suas músicas. Na contramão da Justiça, emissoras de TV se despem de toda ética e bom senso e tiram proveito máximo da ascensão meteórica desses pequenos “artistas”. O CQC, outrora rotulado de humor inteligente, chegou ao ponto de fazer um quadro com garotas funkeiras que ensinaram a “dar um fora” nos rapazes; além do “CQ Teste” que contou com a participação do MC Brinquedo. O Câmera Record, programa daquela emissora sustentada por uma igreja, apresentou uma matéria que mostrou o lado “família” dos funkeiros mirins. Esse exemplo, por sinal, merece ser discutido à parte.

O que dizer quando o MC Brinquedo recebe apoio da própria mãe, que costura as roupas usadas pelo filho nos shows e ainda se limita a dizer, na dita reportagem, que não admite que ele traga suas músicas para dentro de casa? Sem contar o momento “comovente” em que o MC Pikachu compra um carro para presentear o pai.

Dias atrás, li em um blog de música uma crítica sobre “a marginalização do funk brasileiro”. Sim, ela existe de fato. E penso ser um erro abominar o funk como um todo, visto que ele representa nossa cultura, ainda que muitos torçam o nariz pra ele. O que não podemos é ser coniventes com a degradação moral das crianças. Casos como o da MC Melody são exemplos de exploração infantil. Motivada pelo pai (também cantor de funk), ela própria não sabe o que canta, e não tem capacidade de discernir as consequências de seus atos. Não creio que seja esse o caso dos MCs Brinquedo, Bin Laden, Pikachu e tantos outros. Acredito que eles saibam muito bem o que estão cantando. O próprio “Brinquedo” mencionou, em um programa de TV, que ele canta o que os garotos de sua idade gostam e conversam. O que está errado então? Acho que faltou a eles foi um melhor aporte familiar, um acompanhamento por parte dos pais, que não deveriam permitir que seus filhos seguissem caminho tão duvidoso, e tão precocemente. Ainda que o cotidiano desses jovens não seja condizente com aquilo que cantam (refiro-me a viverem rodeados de mulheres adultas, seduzindo-as ou sendo seduzido por elas), como a reportagem da Record fez questão de enfatizar, é importante lembrar que eles são um (mau) exemplo para outros milhões de jovens que vão aos seus shows, ouvem suas músicas e assistem aos seus vídeos no YouTube – aliás, o que esses vídeos ainda estão fazendo por lá?

Sou, sim, contra a hipocrisia que impera na dita “classe intelectual” do país. Não sou da opinião que só tem bom gosto quem ouve música popular brasileira ou rock americano. Eu, particularmente, ouço inúmeros gêneros musicais (além do pop que nomeia essa coluna), dos quais pouco ou quase nada é MPB. É um gosto MEU, algo que deve ser respeitado. Não tenho vergonha de dizer que gosto desse funk mais voltado ao pop que está em ascensão na indústria fonográfica do país. São músicas que passam mensagens divertidas, às vezes interessantes, sem ser apelativas.

Permita-se prestar atenção na temática feminista em “Beijinho No Ombro”, do poder de superação em “País do Futebol”, da dança pelo prazer da dança em “Vou Desafiar Você”, e ainda, em tudo o que o Dream Team do Passinho anda fazendo. Esse grupo, originado nas favelas cariocas, ganhou fama nacional após recriar o tema da Coca-Cola para a Copa do Mundo no ano passado, e o sucesso cresce cada vez mais. Lançou um hit potencial, “De Ladin”, e ainda fez parceria com Ricky Martin em uma nova versão para sua música “Vida”. Aliás, por se falar em Copa Do Mundo, não surpreende que a música da propaganda de refrigerante tenha sido prontamente assimilada pelos brasileiros, ao contrário da desastrosa parceria de Pitbull com Jennifer Lopez e Cláudia Leitte.

Rotular o funk como música de mau gosto é o mesmo que ligar a homossexualidade à AIDS e prostituição. E trata-se de preconceito do mesmo nível: quando desmerecemos a inteligência de um indivíduo somente porque ele ouve funk, ou ofendemos a moral de outro por sua orientação sexual. Mais chocante que o sexualização inserida nesse gênero musical, é o fato de termos convivido com essa realidade por décadas. Nos anos 90 tivemos um menino oito anos e uma menina de nove cantando versos pouco inocentes no estilo “O que que ocê foi fazer no mato, Maria Chiquinha?”, e no final da década de 2000 as rádios ainda eram infestadas pelas músicas de duplo sentido (ou de sentido explícito mesmo) da dupla sertaneja Teodoro & Sampaio. Nem mesmo um gênero elitizado como a MPB ficou livre de algumas pérolas como a polêmica “Eu comi a Madona” da Anna Carolina.

O rock já teve o estereótipo de culto ao demônio; o sertanejo, já foi música de “dor-de-cotovelo”; o rap era ligado aos gângsters; o reggae era uma apologia à maconha. Anos se passaram até que tais estilos saíssem da marginalidade, algo que somente conseguiram mostrando um bom conteúdo. Hoje, o rock é uma música de atitude, o sertanejo é festivo, o rap representa a voz dos oprimidos e o reggae leva uma mensagem de paz (o que, aliás, ele sempre levou).

O funk, como qualquer outro gênero autêntico da nossa cultura, merece o devido respeito. Criticar aquela vertente tão apropriadamente chamada de “proibidão”, não implica, necessariamente, no demérito de todo um estilo musical, mas representa uma ânsia de salvá-lo e não deixar que sofra um retrocesso e perca (outra vez) a sua dignidade. O funk veio para ficar, queira você ou não, do mesmo jeito que o rock que seus pais odiavam e mesmo assim você ouve até hoje.

Talvez Björk tenha sido conquistada por essa energia, pelo ritmo contagiante, a dança e as batidas fortes do funk. Só espero mesmo que, na próxima vez, antes de discotecar ela insira a letra da música escolhida no Google Translate para não virar piada internacional. E, claro, também aconselho aos pais que comecem a prestar mais atenção na playlist de seus filhos.

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