Coluna Somos Pop. As Cidades-Fantasma

Posted on 18 de maio de 2015 por

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Maxx Zendag 2015

O mundo da música é repleto de coincidências. São inúmeros os casos de canções distintas que possuem o mesmo título. “Wrecking Ball”, por exemplo, foi o nome de uma faixa do álbum homônimo de Bruce Springsteen, lançado em 2012, um ano antes da melodia de Miley Cyrus que rendeu o polêmico videoclipe da bola de demolição. E há outros exemplos.

Daft Punk lançou “Around The World” em 1997; dois anos mais tarde surgiu uma canção de mesmo nome gravada pela banda Red Hot Chili Peppers. O rapper 50 Cent apresentou a música “Candy Shop” em 1999, e Madonna nos trouxe sua “Candy Shop” em 2012. Por falar na Rainha do Pop, ela mesma tem duas composições distintas com nomes iguais: “Forbidden Love” é o título de uma faixa do disco Bedtime Stories (1994) e de outra música do Confessions On A Dance Floor (2005).

Um caso bem curioso aconteceu no ano 2000: duas músicas chamadas “I Turn To You”. A primeira foi a melodia romântica da Christina Aguilera, lançada em abril e, apenas quatro meses mais tarde, veio a canção da ex-Spice Girl Melanie C.

No entanto, nenhuma dessas “coincidências” da música é comparável com um acontecimento de 2015. No mês de março a cantora Madonna – de novo ela! – lançou “Ghosttown”, o segundo single do álbum Rebel Heart. E eis que, um mês depois, o cantor Adam Lambert divulgou sua nova música, intitulada “Ghost Town”! E o mais interessante não é a (quase) semelhança dos nomes ou a (quase) simultaneidade do lançamento de ambas as canções, mas a maneira incrível como uma complementa e, ao mesmo tempo, contradiz a outra.

Em seus versos, Madonna canta sobre um mundo à beira de um colapso e, nesse contexto, apenas o amor poderia salvar a humanidade de seu próprio fim. Adam, por sua vez, narra um sonho em que o amor não existe mais e, embora o nosso mundo esteja fisicamente intacto, é o mundo interior do cantor que foi destruído. Temos, aqui, o amor como o protagonista e a cidade (fantasma) como cenário. O que difere as composições é que, em uma, o amor é tudo o que resta enquanto na outra, o amor se extinguiu.

O que liga essas duas cidades-fantasma é, pura e simplesmente, a linha do tempo.

A Ghost Town de Adam Lambert representa um presságio de um futuro não muito distante, a ocorrência de um caos eventual: todas as máquinas desconectadas e, por consequência, o tempo jogado ao vento… os amigos descontentes… as cidades de ferrugem. E não seria assim se, inesperadamente, os meios de comunicação – telefonia móvel, internet, televisão – entrassem em colapso? Como seria, para a sociedade, reinventar sua noção de tempo, esse tempo que nunca parecia suficiente para compartilhar, curtir e tuitar tudo aquilo que desejávamos?

Possivelmente haveria uma sensação de vazio. Não poderíamos nos comunicar tão rapidamente com tantos amigos, tampouco dividir com eles os momentos felizes. Adiantaria enviar uma carta pelo correio para cada amigo, contando como foi o meu dia? E como eu iria saber quantos terão curtido minhas palavras? Sem contar que elas chegariam até eles alguns dias depois… quando eu teria mais um pacote de coisas para contar. E mais: será que todos os acontecimentos do mundo, que sempre queremos saber em primeira mão, caberiam em algumas dezenas de páginas de um jornal impresso? Quanto tempo a gente levaria para encontrar, em uma imensa enciclopédia de dezenas de volumes, a informação que o Google me trazia em segundos? O pior de tudo isso é que seríamos obrigados e olhar para as pessoas ao nosso redor. Mais que isso: olhar nos olhos delas.

É aí que entra a música da Madonna: esse colapso nas comunicações poderia ser uma consequência de algo maior, talvez um colapso climático devido ao aquecimento global – “quando o mundo ficar frio” – ou um desastre nuclear – “quando tudo cair”. No videoclipe podemos ver que, como num de seus versos, a cantora vive em um mundo reduzido a cinzas. Em meio a um cenário desolador, ela é observada por um homem que, primeiramente, a vê como ameaça, até que, no momento em que pretendia confrontá-la, fica fascinado e se entrega ao mais puro amor – representado pela dança. O final da história deixa clara e mensagem de que somente a (re)união das pessoas poderá salvá-las e prepará-las para um recomeço.

Retomando a canção de Adam Lambert, faço um convite à reflexão. Seria ela a predição de um futuro próximo ou a representação mais pura do presente? A sociedade cada vez mais dependente – melhor dizendo, viciada – na tecnologia e na comunicação rápida, leia-se dispositivos móveis e redes sociais. “Andei entre as chamas” – uma possível alusão à violência urbana, ou mesmo às guerras. “À procura de confiança”, em tempos difíceis, onde as pessoas se escondem por trás de uma segunda vida nas redes, onde todos são bonitos, felizes e cidadãos de bem. “Elvis está morto e todos espalham”, uma brilhante ironia aos memes e vídeos virais que, por vezes, difamam pessoas e destroem vidas. E não é isso que amamos? “O amor é uma sátira”. A morte descrita no sonho de Adam era uma metáfora, pois ele se sentia morto por dentro. A cidade-fantasma está dentro de nós mesmos!

Temos, assim, um loop temporal: por sua ambiguidade, a música de Adam Lambert é causa e, ao mesmo tempo, consequência do colapso descrito nos versos de Madonna. Em um mercado que, cada vez mais, valoriza os passinhos e twerks, a música pop nos traz, através de uma veterana e de um (quase) novato, uma importante lição de vida: somente o amor ao próximo poderá nos libertar dessa cidade-fantasma de hoje, e nos salvar de perecer nas cinzas da verdadeiramente assustadora cidade-fantasma do amanhã.

 

MAXX ZENDAG

Nascido em Piracicaba, amador nas artes visual e escrita, apaixonado por música.

Autor do livro “A Águia Dos Ventos: O Leão Do Mirante”. Produziu a arte de cartazes para campanhas da Prefeitura de Piracicaba. Sua série fotográfica “É Uma Límgua Portugueza, Concertesa” virou uma exposição (2010/2011) e um livro (2014). Selecionado para a edição de 2014 do Salão Internacional de Humor de Piracicaba.

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