A Lua de São Francisco. Por Luis Fernando Amstalden

Posted on 5 de agosto de 2017 por

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Apesar de todas as minhas dúvidas, a maioria delas vindas  da consciência de que o mundo é regido por fenômenos mais cruamente compreensíveis do que por uma ordem divina direta, eu nunca abandonei a esperança em um Deus, ou, nunca abandonei o Deus da esperança.

Assim, é natural que, em um momento de grandes adversidades, eu me volte ainda mais a este Deus que espero existir, esse Deus da Esperança e mesmo essa esperança em um Deus, ainda que Ele seja sutil, ainda que incompreensível para mim.

Não, não vejo contradição nisso e no resto do que sou. Quem, qual ser, não deseja o consolo de algo maior? Quem, diante do sofrimento, não deseja um Pai ou uma Mãe que o acolha? Talvez alguém muito sábio seja capaz de prescindir deste desejo, mas eu não sou sábio e não tenho vergonha de não prescindir do desejo de um consolo ou, até, de um milagre.

Sempre que posso, vou a uma igreja Franciscana em minha cidade. Uma igreja frequentada pela minha família bem antes de eu nascer. Vou sempre a tarde, quando não há ninguém.  As vezes faço antigas orações, às vezes só fico lá sentado, sentindo o ambiente familiar para mim. Na maioria das vezes eu peço. Peço por mim, por tantos que estão doentes, por tantos que sofrem,  peço pela minha visão e, sim, porque não, peço pela saúde de meu gatinho, que luta contra um tumor. São Francisco… O santo que amava os animais, que amava toda a criação e chamava tudo e todos de irmão, irmã… Por que não pedir pela vida do Raj, meu gato, na igreja dos Franciscanos? Não me envergonho disso e nem acho tolo. Raj é uma vida, uma consciência que, agora, sofre e o sofrimento da vida, toda ela, não me é indiferente e me traz angústia. Quem melhor que S. Francisco, santo venerado desde muito pelos meus, para me ouvir, se puder, se estiver em algum lugar?

Neste sábado fui de novo e a encontrei. Eu já sabia que ela vivia lá, mas nunca a tinha visto. Hoje, no entanto, enquanto eu caminhava em direção ao altar, ela veio me encontrar. Uma gatinha, branca com manchas amareladas nas orelhas. Pertence aos frades, e eu sabia que ela é dócil, já me haviam dito também. Veio miando suave e, enquanto eu me ajoelhava diante do altar, ao lado dos bancos, se acercou de mim.

Fiz-lhe um carinho nas orelhas, ainda ajoelhado e ela saltou para a minha perna e de lá para o banco. Do assento para o espaldar do banco e então, para minha surpresa, foi, devagarinho, andando pelo meu braço que estava apoiado no encosto. Com cuidado, subiu até o meu ombro e se deitou.

Meu ombro esquerdo. O lado que é, segundo dizem, regido pelo não racional, pelo não consciente do nosso cérebro. O lado de minha mão fraca. Meu ombro esquerdo recebeu a gatinha que se acomodou, deixando a patinha pender no meu peito.

Sim, sim, eu sei. A bichana é dócil, acostumada com pessoas, a igreja estava fria e o mais provável é que ela quisesse um pouco de carinho, de calor. Mesmo assim, subir até meu ombro, alguém que ela não conhece, e ficar lá, me pareceu um pequeno milagre, um pequeno sinal de que, afinal, aquela de fato é a casa de S. Francisco. Aquela é a casa de deus e, que lá, alguém me acolheu, sem palavras, ronronando baixinho no meu ombro.

Ela mal se moveu quando tentei, desajeitadamente, pegar o celular e fazer algumas fotos da cena. Consegui algumas e soltei o telefone, ainda de joelhos, com ela no ombro. Um frade entrou na igreja e ficou surpreso com a cena. A meu pedido, fez mais duas fotos e se foi, não sem antes pedir que eu as mandasse para ele.

Quando me cansei da posição, tentei mudar devagar e ela acompanhou. Sentei-me no chão, de pernas cruzadas e ela se aninhou em meu colo. E ficamos os dois ali, por bastante tempo, com a luz do entardecer entrando pelos vitrais e o silêncio no qual eu julgo mais fácil sentir o consolo divino do que na gritaria de outras formas.

Agora eu sei o nome dela. Ela se chama “Lua”. O frade me contou. E, para mim, ela é a lua que S. Francisco chamava de irmã. Para mim, ainda que seja só porque eu preciso disso, ela foi um pequeno sinal de Deus e do santo que admiro.

Ainda que Raj não sare e eu o perca, ainda que minha visão não cesse de se deteriorar e eu a perca, ainda que nenhum grande milagre venha a acontecer, saí de lá feliz.

Porque o Deus da esperança, que eu busco, se colocou no meu ombro e a vida, tão milagrosa, ronronou para mim, através da Lua de São Francisco…

Luis Fernando Amstalden. 05/07/2017

Esta foi a foto que o frade tirou

Lua no meu colo

Posted in: Crônicas/Contos