A culpa é dos Patos. Por Luis Fernando Amstalden

Posted on 15 de fevereiro de 2018 por

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Imagem da Internet

Eu soube pelas redes sociais. Uma avalanche de posts mostrava fotos do desfile da escola de samba “Paraíso da Tuiuti”. O tema geral: “A escravidão acabou mesmo?”. Vi e gostei. Até brinquei pelo Facebook dizendo eu não ligava para carnaval (o que é fato), mas era “Tuiuti desde pequenino”. A reação veio um pouco mais lenta do que a divulgação, mas veio e continua até agora. Centenas de comentários, posts e artigos criticando a escola passaram a ser compartilhados. A primeira que eu vi dizia: : “A Tuiuti, a escola lacradora em 2018, é aquela que em 2017 atropelou várias pessoas na Sapucaí, matou uma repórter e não teve uma única punição por isso? Atá”.

Não entendi. O que tem a ver o acidente com o enredo da Escola? Por um acaso devido ao acidente, ela não pode escolher seu enredo? Não pode criticar a mudança na CLT, cujos efeitos muitos trabalhadores só começam a perceber agora? Não pode falar em racismo ou criticar Temer? Ora, a Escola deve responder pelas suas responsabilidades, mas negar o enredo crítico por isso é o mesmo que negar as recentes críticas da Rede Globo aos privilégios do Judiciário porque ela tem pendências judiciais e trabalhistas, ou ainda porque ela é de direita.

Depois os comentários subiram de tom. Críticas agressivas ao carnavalesco, que seria do PSOL e futuro candidato. Críticas ao fato da Escola não pagar direitos trabalhistas aos seus funcionários, acusações de hipocrisia nesses itens. Bem, eu não sei se o carnavalesco é do PSOL e muito menos se a Escola deixa de registrar seus empregados. Mas, se o carnavalesco for e for mesmo pretendente a uma carreira política, em que isso diminui o mérito do enredo? A mudança da CLT agradou a população? Aumentou significativamente o número de  empregos? Nos tirou da crise?

O mesmo se aplica aos outros questionamentos do enredo. O  racismo e a servidão modernos desapareceram? Temer é querido? Por acaso ele não está sendo acusado de um crime mais explícito do que aquele que levou ao impeachment de Dilma?  E, pior, não está sendo protegido da acusação por deputados que vendem sua proteção por emendas e leis, uma das quais até tentou descaracterizar o que se considera trabalho escravo a pedido de ruralistas? Por acaso tudo isso, independentemente da filiação do carnavalesco e de suas possíveis pretensões políticas, não é percebido pelas pessoas, que aplaudiram a Escola? Então porque as críticas? Por que essa tentativa de calar o que foi “dito” se descaracterizando quem “disse”? Por que os posts não discutiam, então, o que se criticava, como a figura de Temer, a CLT, o racismo? Por que só se preocupavam em falar da pretensa “hipocrisia” da Tuiuti?

Não sei se a Tuiuti deixa de registrar seus empregados. Se deixa está errada, mas aposto que as outras também não registram. Então porque só ela foi criticada e nem a Beija Flor, que falou da corrupção e fez claras alusões ao crime como desigualdade social, não recebeu as mesmas “vaias digitais”?

Penso que a culpa é dos patos…

A Tuiuti ousou, em uma ala e em alguns carros, representar os      “Patos da Paulista”, as alegorias pagas pela FIESP durante os grandes protestos pelo impeachment e contra a corrupção. Ousou mostrar nos carros, que muita gente foi manipulada naquelas manifestações. E foi isso que incomodou tantos.

Eles acusam a Escola de ser hipócrita.

Mas para mim, hipócritas são a FIESP, os partidos que promoveram o impeachment, os grandes veículos da mídia, os movimentos como o MBL e o “Vem para a Rua”. E são hipócritas NÃO porque eu acredite que o PT estava certo no seu governo. Já escrevi sobre isso muitas vezes.

Mas são hipócritas porque se marcharam contra a corrupção, agora se calam diante de outros corruptos. Porque seu candidato Aécio Neves foi pego em gravações que são provas de corrupção mais evidentes do que aquelas que levaram Lula à condenação, mas as panelas silenciaram e os movimentos se calaram.

São hipócritas porque alguns líderes dos movimentos se “acertaram” agora, como “assessores” de partidos do atual governo, alguns, aliás, são tão moleques que não serviriam para assessorar um carrinho de picolés, mas estão lá. São hipócritas porque o PSDB e outros partidos que “lutaram” pela honestidade, ao perderem seu “futuro presidente”, Aécio, não ousaram serem coerentes e terem brio, deixando o governo Temer. Alegam que fazem isso em nome da estabilidade econômica. Mentira. Não há estabilidade, há interesse em se manter nos cargos. E ainda por cima nem ao menos se manifestam contra o fato de que o Ministério do Trabalho está vago a mais de um mês, porque a filhinha cujo papai lhe “comprou” o cargo, está sendo processada e investigada por diversos motivos. E mesmo assim, os “guardiães da moralidade”, seja a FIESP, seja o MBL, seja o PSDB ou os que marcharam, não dizem nada.

A Tuiuti não é hipócrita. Ainda mais se for mesmo ligada ao PSOL, afinal o partido foi contra as reformas e ao impeachment e isso é seu direito de posição. Se a escola aceitou o enredo e se colocou também contra esses fatos, também foi coerente e corajosa, mais corajosa do que a Beija Flor que pisou em Sérgio Cabral, que já está preso. Foi boa sim, a agulhada da Beija Flor, mas a Tuiuti foi melhor ao mostrar Temer como ele é.

Hipócritas, para finalizar, são os que reclamam de que o dinheiro público foi usado para criticar os “patos”.

E são porque o dinheiro público está sendo usado para coisa muito pior do que isso. Está sendo usado para pagar bilhões em emendas aos parlamentares, em troca de proteção a bandidos, quebrando a tão incensada contenção de gastos públicos. E os que amam os patos da FIESP, não dizem nada…

Tenham vergonha na cara, vocês que criticam a Tuiuti e “combatem a corrupção e o mal uso do dinheiro público” e voltem às ruas então.

Ou assumam que nunca foram contra a corrupção, só contra os corruptos de quem não gostavam.

Prof. Dr. Luis Fernando Amstalden

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