O PERDÃO DO SOBREVIVENTE. Por Luis Fernando Amstalden

Posted on 16 de abril de 2018 por

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Thomas Vernetianer em sua palestra em Piracicaba. Foto Luis Fernando Amstalden

Jayme Rosenthal, meu falecido amigo, conseguiu instituir em Piracicaba o Dia da Lembrança, destinado a relembrar o   Holocausto e o massacre de judeus e outras vítimas do nazismo. Jayme se foi, infelizmente, mas seus filhos, Daniel e Marcelo Rosenthal, deram sequência à organização das solenidades.

Desde o início, fui convidado para as os eventos. E, graças ao meu amigo, pude, depois, conhecer e conversar pessoalmente com dois dos sobreviventes que vieram falar nos eventos. Isso é um privilégio muito grande, não só porque é raro ter uma oportunidade destas no interior como pelo fato de que, com o passar do tempo, eles se vão.  São “bibliotecas” que se perdem, porque mesmo que suas memórias tenham sido registradas em livros e depoimentos, nunca podemos apreender toda a miríade de sentimentos e emoções advindas do horror por que passaram.  Assim, conversar com eles frente a frente nos faz compreender mais.

Foi isso o que aconteceu quando conheci Arieh Yaari e Thomas Venetianer. Com o primeiro, me encontrei somente uma vez. Ele nos deixou não muito depois disso. Com o segundo que era ainda criança ao ser aprisionado com sua família, eu pude me encontrar duas vezes e ouví-lo em palestra e em conversa informal.

O segundo encontro foi em 2017, no mês de abril, data do evento. Eu o ouvi de novo em palestra. Ouvi de novo a sua narrativa de como seu pai tentou livrar a família da perseguição, mudando de cidades e até conseguindo, com um padre que era seu amigo, um certificado falso de batismo. De como, apesar dessas tentativas, acabou sendo preso com seus pais. De como um comandante nazista, fraturou a clavícula do seu pai, quando este tentava se aproximar do filho assustado no campo de triagem. E daí, como ficou com sua mãe no campo de Theresienstadt, onde aproximadamente trinta e três mil judeus morreram, sendo muitos outros enviados para Auschwitz, onde a  maioria foi assassinada. Dos 140 mil prisioneiros que passaram por Theresienstadt, somente 19 mil sobreviveram. O pai foi  deportado para um campo na Alemanha.

Ouvi seu relato sobre a caxumba que contraiu e dos esforços de sua mãe, que trabalhava na enfermaria, para conseguir remédios e salvar a vida do filho. De como foi o dia em que os soviéticos libertaram o campo e o relato comovente do soldado que saltou da traseira de um tanque de guerra que entrava no campo, e correu até o pequeno Thomas e o abraçou, chorando. Da comida que os soldados deram aos prisioneiros, com grande generosidade, até porque o Exército Vermelho não era famoso por suas provisões fartas. Mas do efeito perverso que tal solidariedade causou. Muitos prisioneiros subnutridos demais, adoeceram ao consumir gordura e proteína rudes dos soldados e vieram a falecer, em número maior até do que a média, nos dias posteriores.

Thomas conta que somente depois que os médicos do Exército Vermelho chegaram, é que a alimentação foi adequada ao estado de saúde dos prisioneiros, readaptando-os devagar para não causar choques digestivos que a saúde combalida não aguentaria.

Ouvi ainda a história de como ele e sua mãe conseguiram reencontrar o seu pai, reunindo de novo a família. E depois, de como seu pai, com a ajuda de uma funcionária do consulado brasileiro, obteve um visto para emigrarem ao Brasil. E, finalmente, de sua primeira impressão de nosso país: centenas de balões (era mês de junho) brilhando na noite, enquanto subiam a Serra do Mar em direção a São Paulo.

Em todos esses relatos, que ouvidos duas vezes, na segunda com mais detalhes, fiquei impressionado com a calma didática que Thomas contava sua história. A garganta dos espectadores apertava pela emoção, mas a voz dele nunca tremia ou se alterava.

Em uma sessão de perguntas, na segunda palestra, indaguei sobre a então recente (e controversa) visita de Jair Bolsonaro à Hebraica do Rio de Janeiro. Ele foi direto. xondenou a visita e afirmou que ela não deveria ter acontecido. Justificou sua posição dizendo que um homem que faz afirmações de intolerância e contra os direitos humanos, não deveria ser recebido entre os judeus. Disse ainda que a liberdade de expressão tem limites e não se pode aceitar que alguém tenha a o direito de disseminar ideias e ideologias de ódio e violência, ideias que atentam contra a liberdade de expressão e os fundamentos da democracia.

Nesse momento de perguntas livres, alguém se levantou e indagou a Thomas se ele sentia ódio ou ressentimento dos alemães. Ele  negou e contou a seguinte passagem de sua vida.

Já adulto e casado, Thomas foi trabalhar na Suíça e viveu lá alguns anos com sua esposa.  Esta, por sua vez, fez amizade com uma alemã e os dois casais, um judeu e outro cristão começaram a se frequentar socialmente. O alemão, marido da amiga da esposa de Thomas, não escondeu que seu pai e avô haviam sido nazistas e participado da guerra. Thomas tampouco escondeu que fora  prisioneiro dos nazistas em um campo. Mesmo assim,  mantiveram o relacionamento social.

Em um feriado prolongado, o amigo alemão convidou o casal para uma viagem à Munique, sua cidade natal Eles tinham uma casa lá e convidaram Thomas e sua esposa para ali passarem o feriado. Convite aceito, a viagem aconteceu.

Em um dos dias em que estiveram lá, o alemão convidou Thomas para um passeio, só os dois. Mas não disse para onde iam, disse apenas que era para um lugar que ele queria mostrar. Thomas esperando ver algum ponto de interesse turístico ou algo assim, estranhou o não convite à sua esposa.

Depois de dirigir por algum tempo, o alemão parou em frente a um lugar e eles desceram. Era o local do antigo campo de concentração de Dachau, por onde passaram 160 mil prisioneiros dos quais , dos quais 27 mil morreram alí mesmo.

E lá, em frente a um memorial às vítimas, , o alemão fez algo surpreendente.

Ajoelhou-se no chão e pediu perdão a Thomas. Pediu perdão pelo que os nazistas fizeram. Pediu perdão pelo povo alemão e pelos seu pai e avô.

Foi então, ao contar esse fato, que a voz de Thomas se embargou e ele irrompeu em lágrimas. Um choro breve, mas intenso, que paralisou a todos nós que assistíamos. Não eram as lembranças do sofrimento que o levavam às lágrimas, mas a lembrança do pedido de perdão.

Penso que Thomas já havia perdoado bem antes. Não guardava rancor ou ódio, caso contrário, como teria convivido com o filho de nazistas? Mas, talvez naquele momento em que recebeu o pedido, seu perdão tenha, finalmente, se externado e liberado definitivamente Thomas do peso do ódio, do ressentimento.

Chovia naquela tarde, quando voltei a pé para minha casa. Eu estava tão absorto pelo que vi, que ignorei poças d´água, encharcando meus pés. Eu pensava se seria capaz de um perdão tão grande. Eu, que tenho dificuldades em perdoar até ofensas verbais. Acho que estou muito abaixo de tal nobreza.

Lembrei-me de um trecho do épico milenar indiano, o Ramayana. O trecho, do qual reproduzo uma parte aqui,  diz:

“Oh! Homem, sou o demônio guerreiro Indrajit, difícil de se ver. Luto invisivelmente escondido da tua vista por encantamento. Ataco por trás dos ventos selvagens do mau pensamento; apago muitas luzes desguardadas. (…) Podes esconder-te, à noite, do sol, mas nunca do te próprio coração (…). Todos os mundos observam tuas ações e, portanto, o perdão é Dharma. (…) Dilata o coração. Renuncia à cólera. Acredita-me teus poucos dias nesta terra estão contados, fazes agora mesmo uma escolha rápida e não penses em outra.”

Dharma… Dharma quer dizer “verdade”, “caminho”. E o Dharma, segundo o Ramayana, está no perdão.

Thomas Venetianer encontrou a verdade, o caminho.

Que todos nós possamos fazer o mesmo.

Prof. Dr. Luis Fernando Amstalden

Texto dedicado a Jayme Rosenthal, Arieh Yaari, Thomas Venetianer e a milhões de vítimas que sofreram o Holocausto e ainda sofrem a violência e a injustiça hoje.

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