Dias de insana realidade. Por Luis Fernando Amstalden

Posted on 4 de abril de 2018 por

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Alguns amigos e amigas estão me cobrando um texto ou uma análise do que está acontecendo hoje e por estes dias.

Mas tudo é tão insano que tenho dificuldade em escrever.

Eu não tenho dúvidas de que a corrupção no governo do PT foi grande e, Lula, de uma forma ou de outra, esteve envolvido ou ciente.

Mas as provas são mais frágeis do que aquelas contra Aécio e Temer, e estes dois nem podem ser julgados.

Por outro lado, se o STF julgar que Lula não deve ser preso, Eduardo Cunha e outros usarão o precedente para pedir liberdade. Aliás, isso ajudará Temer e Aécio a nunca serem presos, assim como muitos outros.

Os que celebram o “fim da corrupção” com a provável prisão de Lula, não percebem que o jogo é outro. Embora a sua liberação possa beneficiar políticos já presos ou em vias de o serem, como eu disse, é óbvio que o interesse dos políticos e do STF não é o da justiça ou fim de corrupção e privilégios, mas os interesses de grupos e estratos sociais a que pertencem. Se o STF de fato fosse um guardião da constituição, retiraria o auxílio moradia de juízes que ultrapassa o teto constitucional e custa mais de um bilhão de reais aos cofres públicos, mas não o fez e não fará.

Se os juízes quisessem a justiça e a ética, abririam mão desse auxílio e de outros privilégios, mas não vão, e alguns fazem greve de fome em nome da “justiça e da ética”.

Ao mesmo tempo, generais da reserva e da ativa, falam o que não deveriam. Falem em Golpe, em quebra da ordem constitucional e são defendidos por Temer que alega “liberdade de expressão”. Defesa insana, defesa da liberdade de pregar o fim da liberdade. Temer não se importa de fato com a democracia, mas com os seus interesses e os dos seus amigos e vai fazer o que for preciso para que ele e sua quadrilha permaneçam soltos, ricos e no poder.

Ao mesmo tempo, centenas de milhões de brasileiros pobres estão alheios a tudo isso, como sempre estiveram alheios em relação as lutas de poder da “Casa Grande”. Nâo os culpo, eles nunca tiveram a real cidadania e estão ocupados demais tentando viver para se inteirarem do que sempre lhes foi distante, a não ser em épocas de eleições quando se pode trocar um voto por alguns tijolos.

Enquanto esses milhões estão alheios, milhares de pessoas de classe média ou alta pedem golpe militar PROTEGIDOS pela PM, a mesma que bate em manifestantes de esquerda. E a “esquerda”, como tenho dito à exaustão, não se reciclou, não se reviu e abandonou a organização da cidadania dos pobres, deixando as periferias entregues ao crime organizado, aos pastores que prometem a riqueza imediata e aos políticos de carreira, velhos no poder. A esquerda e Lula optaram por eleger o executivo e negociar com o legislativo clientelista e coronelista, digo isso há muitos anos, desde do segundo mandato de Lula. Agora eles colhem os frutos amargos do cultivo de relações dom as velhas ratazanas do poder.

E para coroar, Sérgio Moro defende o privilégio do auxílio moradia na mídia, que ele tanto preza, desmerece alguns delatores por serem bandidos (e que acusaram os que são próximos do magistrado) mas aceita o de outros delatores, também bandidos, que delatam quem ele prefere que delatem. Aliás, eu me pergunto, qual a diferença entre o privilégio de ter o aluguel de um “triplex” pago por empreiteiras e o aluguel pago pelos contribuintes em forma de auxílio moradia. Para mim, se Lula de fato recebeu esse “privilégio”, Moro recebe também. E nós pagamos a ambos.

Nestes dias, o Brasil se revela como sempre foi. Um país de insana realidade, no qual a luta não é pela democracia, pela oportunidade a todos ou pelo próprio desenvolvimento, mas pela manutenção do poder de quem o tem, às custas de qualquer coerência ou ética.