Ler. E viver… Por Luís Fernando Amstalden

Posted on 18 de agosto de 2019 por

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No ano passado, por essa época, eu já não conseguia mais ler em papel. A degeneração na retina progressiva atingiu o ponto em que a leitura em papel é quase impossível. Eu ainda conseguia utilizar um kindle, um aparelho de livro eletrônico, mas tinha que aumentar muito o tamanho das letras e o processo se tornava penoso demais.
Para quem, como eu, tem os livros como companheiros desde antes de ser alfabetizado aos seis anos, isso foi um golpe muito difícil.
Ler sempre foi viver, pelo menos para mim. Viver de uma forma expandida, que permite vencer o tempo, conhecer outras ideias e pensamentos, além de experimentar, dentro do possível, outras existências, outras experiências de vida relatadas por quem escreve suas memórias e suas vidas, compartilhando-as conosco.
Confesso que a limitação me deprimiu. Estava me impedindo de viver no sentido amplo a que me referi. Estava me matando um pouco, talvez muito mesmo.
No final do ano, porém, graças a amigos queridos, conheci sistemas de leitura automática, os mesmos que me permitem escrever agora e continuar lendo livros. Ganhei também um tablet onde posso baixar livros digitais e carrega-los comigo, “lendo” em qualquer lugar, nos cafés, nas praças, na fila do banco, na cama, no sofá, sem ficar preso ao computador.
Para minha surpresa, acostumei rápido com a voz robótica do aparelho. Acho que isso foi por “demanda reprimida”, por ter tanta vontade de ler que a voz eletrônica que narra os livros para mim e agradável. E de mais a mais, posso repetir mentalmente os trechos mais líricos e/ou importantes de uma obra de modo a resgatar a emoção ou a relevância que estão lá.
Nem tudo é substituível, no entanto. Sinto falta das minhas estantes e armários abarrotados de exemplares, de cuja compra e época de aquisição e leitura eu era capaz de me lembrar. Sinto falta do cheiro do papel, das capas, das anotações que eu fiz em muitos, das dobras e até do cheiro deles, do cheiro de livros novos e velhos conhecidos.
Sinto falta de poder emprestar um livro de que gostei muito para alguém que eu sabia que ia apreciar tanto quanto eu. É… eu emprestei muitos livros e perdi muitos assim, mas tudo bem. Com algumas exceções, eu gostei de emprestar, porque livro lido é livro vivo e, na verdade, é uma outra vida partilhada. Agora minhas estantes estão bem mais vazias. Vendi muitos livros para recomprar alguns ou comprar outros em formato digital.
Mas do que eu mais sinto falta é de poder ler em voz alta para meus alunos e alunas em sala de aulas ou para amigos e amigas. Ler um trecho ilustrativo de algum tema, um trecho motivador para despertar o interesse pelo assunto que iria ser abordado em sala de aula, como fu fazia muito ao leccionar História ou Sociologia, ou mesmo ler um trecho de grande beleza, até para desconhecidos, como eu também fiz muitas vezes.
Sim, isso faz falta.
Não estou me queixando. Eu voltei a ler, voltei a viver mais amplamente.
Hoje, dia 18 de agosto de 2019, faz sete meses que voltei a ler. De lá para cá, estou no vigésimo segundo livro, dentre os quais li “A estrada”, de Vassily Grossman, “Casa de pensão”, de Aloísio de Azevedo, “O crime da galeria de cristal”, de Bóris Fausto, “A batalha do desfiladeiro dos termópilas” de Heródoto, “O declínio do homem soviético”, de Svetlana Alexeievitch” “O clube da luta”, Anne de Grengable”, “O auto da compadecida” e até um policial: “A inocência do Padre Brownn”, dentre outros. Portanto estou bem feliz lendo ainda. E mais livros virão, mais recursos, que me permitirão reler livros preciosos que tenho ainda em papel e não existem em formato digital. Aliás quase inexistem em papel.
Mas para compensar a falta que sinto de ler em voz alta para alguém, escrevo esse texto.
Escrevo para desejar que você goste de ler, goste muito e ame os livros.
Por que ler é viver.. viver mais, muito mais do que nossos poucos anos nesta terra nos permitiriam se não lêssemos.

Posted in: Estante