Irmã Dulce e os milagres. Por Luis Fernando Amstalden

Posted on 14 de outubro de 2019 por

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Eu já conhecia algo sobre irmã Dulce, mas agora, nestes dias de sua canonização, é inevitável que conhecesse mais. E gostei do que soube.
Gostei de assistir ao depoimento de sua amiga, que relatou as andanças da agora santa em um bairro de fábricas de Salvador. Lá, ela distribuía alimentos não aos desempregados ou moradores de rua, mas aos trabalhadores que, na hora do almoço, sentavam-se na sarjeta para comer a única coisa que tinham:, uma mistura de açúcar com farinha de mandioca..
Eu vi coisa parecida em minha cidade. Trabalhadores e trabalhadoras que geravam a riqueza de alguns, mas viviam na pobreza, comendo apenas açúcar e carboidratos, já que seus salários não permitiam outra coisa.
Gostei de saber que certa vez, ela andava pela rua e foi abordada por um garoto que ardia em febre e pediu-lhe que não o deixasse morrer na rua. Ela o levou até uma casa abandonada e pediu a um transeunte que arrombasse a janela para que ela pudesse abrigar e tratar do garoto lá dentro. Bendita ousadia transgressora dos santos…
Gostei também, de ouvir, ainda no depoimento de sua amiga em um programa de TV antigo, que estando sem leite para as crianças e doentes em suas instituições, Sta. Dulce dos pobres entrou em uma igreja de Sto. Antônio, onde outros fiéis rezavam, e ajoelhando-se, começou a “conversar” com o santo e dizendo em voz alta: “Sto. Antônio, eu não tenho leite.. por favor, Sto. Antônio, me ajude a encontrar leite, dê-me leite, meu santo. E, então as pessoas que estavam na igreja foram saindo e correndo até o comércio, de onde voltavam com litros e litros do leite tão necessário… Ah, que “santa malandragem baiana”, tão necessária. A mesma “malandragem” que também a fez corar o poderoso Gal. Figueiredo e outros poderosos e ricos… Que ato malandramente santo e necessário, até porque não era para ela nem para a igreja, mas para os pobres.
E o que amei saber é o fato de que ela aparentemente não tentava converter ninguém. Não “negociava” ajuda por conversões e recebia telefonemas de Mãe Menininha do Gantois que pedia ajuda aos fiéis do seu terreiro e era atendida pela Santa.
Amei saber que ela gostava de assistir a procissão da lavagem das escadarias da Igreja do Senhor do Bonfim, que gostava dos clarins dos “Filhos de Gandhi” e estes, sabendo de sua predileção, calavam os atabaques e agogôs ao passarem pelo seu convento, deixando somente os clarins que ela tanto gostava soarem. Meu Deus.. que linda e amorosa homenagem, Tão linda quanto as saudações das mães de santo que ainda acontecem na mesma procissão, quando além de “baterem cabeça” para Santa Dulce dos pobres, ou o fato do cortejo ter passado em silêncio quando Dulce estava mortalmente enferma.
Li e ouvi os depoimentos dos que viveram os milagres ratificados para a canonização.
Milagres existem?
Não sei bem o que dizer.
Sou instruído o suficiente para saber que as vezes o que consideramos milagres têm outros motivos, tanto vindos da natureza quanto da nossa própria vontade de crer em milagres. Mas também sou suficientemente instruído para saber que não há explicação para tudo. E eu próprio vivi algumas experiências para as quais nunca encontrei explicações racionais prováveis, bem como ouvi histórias do gênero, vindas de fontes seguras.
No entanto, independente dos milagres reconhecidos e ratificados pela Igreja Católica, penso que Santa Dulce realizou milhares.
Ocorre que em um mundo cada vez mais violento, egoísta, individualista, que prega o enriquecimento pessoal a todo custo e exclui os pobres, os idosos e doentes, ou só os ajuda se eles forem da mesma religião ou credo, Santa Dulce contrariou a “lógica mundana” e alimentou os que tinham fome, deu de beber aos que tinham sede, remédios aos doentes e amor aos desamparados.
Contrariar a lógica mundana ao amar e acolher os que sofrem e são considerados inferiores, inúteis, vagabundos ou infiéis é um milagre. E ela realizou milhares destes milagres.
Rogai por nós Santa Dulce dos Pobres
Porque estamos cada vez mais pobres em todos os sentidos.
Rogai pelos filhos e filhas do Candomblé, não para que se convertam, mas para livra-los das perseguições. E para que seus atabaques e clarins continuem soando.
Rogai por mim, para que eu possa fazer alguns “milagres” de amor ao próximo como a Sra. Fez.
E mais fortemente, rogai por mim para que eu perdoe e tolere aqueles que se dizem cristãos e a ofendem em frente ao seu hospital, zombando de sua santidade….

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