A empregada, o pastor e o presidente. Por Luis Fernando Amstalden

Posted on 16 de março de 2020 por

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Eu não iria escrever nada sobre isso, posto que já me manifestei nas redes sociais. Mas, preciso relatar a conversa que tive com uma amiga agora à tarde.
Ela me conta que sua empregada chegou para trabalhar, pela manhã, e abraçou seus filhos sem lavar as mãos. Minha amiga contestou e pediu à moça que pelo menos usasse o álcool em gel que havia na casa. Diante disso, a empregada retrucou:
“Eu não vou usar isso e ressecar minhas mãos, estragar o esmalte…
E ontem, na minha igreja, o pastor disse que só pega esta doença ( infecção pelo coronavírus) quem não tem fé…”
Minha amiga tentou contestar mas o último argumento da moça veio definitivo:
“Você acha que o presidente da república ia sair e abraçar as pessoas, tirar fotos, se a doença fosse verdade?”
Deixemos de lado a futilidade das mãos ressecadas e do esmalte estragado. Comentemos brevemente o pastor e o presidente.
Esta mulher, como todos nós, busca referências, orientações de pessoas e ideias que ultrapassem as suas inseguranças e as suas dúvidas. Não há nada de novo ou errado nesta busca mas isso nos traz a questão da responsabilidade daqueles que se tornam esta referência.
A fé não é algo ruim, mas quem a propaga não pode e não deve ser um ignorante que despreza o conhecimento humano, que, em última análise, também é um “dom de Deus” dentro da teologia.
Quando, no entanto, esse dom da inteligência e da cultura é descartado em prol de uma “comunicação direta com o divino”, que é o princípio de muitos pentecostais (inclusive pentecostais católicos) entra-se em uma “terra de ninguém”, um “espaço” no qual o mundo é reinterpretado e redefinido a partir de um ou mais eventos de “revelação”.
Diante desta reinterpretação, se alguém for contaminado, então terá sido sua própria “culpa”, uma vez que não tem fé ou a tem em pouca intensidade. SE for contaminado e se curar, o que é provável, já que a letalidade do Cov – 19 não é tão alta, então terá sido salvo pela sua fé. Se morrer, voltamos à falta da fé e a “culpa do indivíduo”.
Não há então coletivo, nem mundo físico e muito menos racionalidade ou responsabilidade coletiva, mas sim uma “responsabilidade individual”, a de ter ou não fé. E, caso alguém se contamine por nossa causa, a responsabilidade da sua doença não se deverá a nossa imprudência em termos tomado cuidados ou não, mas na falta de fé do contaminado, isentando o transmissor de qualquer ônus ou culpa.
A relação com a atitude do presidente é mais ou menos a mesma. Enquanto governante de uma nação, ele teria todos os dados, todas as razões e motivos para se acautelar, uma vez que, em tese, tem acesso a mais informações e dados do que qualquer pessoa comum. Mas se ele ignora as cautelas, está sinalizando para todos que a doença não é grave ou, pior, que é irreal.
Infelizmente a “autoridade máxima da nação” é incapaz de analisar os dados a que tem acesso. Prefere usar de teorias de conspiração e da negação da ciência. Esta tem sido a sua atitude desde o início do seu governo, negando, inclusive, o aumento e efeitos das queimadas, a falta de crescimento econômico e até a realidade, de um risco que ele mesmo corre ou o conhecimento da capacidade do Brasil em atender com leitos hospitalares os possíveis doentes.
Tanto o pastor quanto o presidente moldam o comportamento da moça citada e de milhões de outras pessoas. A diferença é que o pastor vai se manter em sua igreja mesmo que fieis morram. Mas resta saber se o presidente se manterá no poder com atitudes assim.
A igreja eu posso escolher frequentar ou não. Mas não tenho condições de escolher o país e o mundo em que vivo.
Só me resta, então, clamar para que outras autoridades façam valer as leis e a racionalidade e limitem o poder desta pessoa que demonstra tal incapacidade de governar. E esta esperança é dirigida também às autoridades militares, uma vez que, mesmo não concordando com a ideologia militar, sei que as forças armadas não são compostas, na sua maioria, por líderes tão estúpidos como o da nação.

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