Os Professores e as Provas – Por Luis Fernando Amstalden

Posted on 7 de junho de 2012 por

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Começa agora para a maioria dos professores, uma das épocas difíceis do ano. Época de correção de provas de fim de semestre. E o problema não é só as muitas provas a corrigir, mas principalmente o conteúdo delas. Para muitos alunos, os professores “se divertem” com provas ruins. Bem, talvez alguns maus professores o façam. Mas quem quer que leve sua profissão a sério, lamenta resultados ruins. Se um professor é digno do nome, então se frustra e entristece com provas que mereceriam notas negativas, se isso fosse possível. Afinal, o sucesso de seu trabalho é o crescimento do aluno e as avaliações, embora imperfeitas, são um dos principais instrumentos para observar tal crescimento. Provas lastimáveis são um dos sinais de um aprendizado lastimável.

Claro que o desempenho fraco tem muitas causas. Algumas, inclusive, ligadas a inadequação do próprio professor. Outras causas estão ligadas a má formação anterior dos alunos e outras ainda ao caráter de “linha de montagem” que o ensino parece estar tomando. Se fossemos elencar todos os motivos e analisá-los, teríamos que produzir uma obra em vários tomos e, de qualquer modo, gente mais competente do que eu já faz este tipo de estudo. Hoje, porém, gostaria de tocar num dos pontos que, a meu ver, é um dos grandes motivos de notas baixas entre alunos.

Acontece que para se compreender qualquer matéria e para  responder uma questão, são necessárias duas coisas absolutamente básicas: saber ler e escrever. É isso que você entendeu mesmo. A maior parte dos alunos de hoje lê e escreve muito mal. Pior é que muitos deles estão na faculdade e é difícil acreditar que eles foram aprovados no ensino fundamental e médio com tal nível de leitura e escrita. E não me refiro somente a ortografia, embora esta seja péssima (um aluno escreveu, por exemplo, a palavra “sexiçoal” querendo dizer sexual, na única prova em vinte e cinco anos de magistério que xerocopiei e guardei…), mas o pior mesmo é a incapacidade de construir um texto coerente, com princípio, meio e fim. A incapacidade de expressar um conceito ou ideia. Em alguns casos, conversando depois com os alunos, o professor percebe que eles sabiam o conceito, mas simplesmente não souberam explicar. Não conseguem se expressar por escrito. Em provas de exatas o erro vem, muitas vezes, de não se entender o que a questão pedia.

Agora eu me pergunto. Caso se aprove um aluno assim, então o que ele vai conseguir em termos profissionais? Sem este básico, como ele pode almejar um emprego e um bom salário? De que adianta o país estar crescendo e recebendo indústrias novas se este crescimento necessita de mão de obra especializada e quem estamos formando mal sabe redigir uma mensagem eletrônica? Você acha que eu exagero? Então pergunte a outros professores. Pergunte à OAB cujo exame de admissão reprova a grande maioria dos candidatos. Segundo meus amigos advogados e professores de direito, a reprovação lá deve-se, em grande parte, a esta incapacidade de se entender e produzir um texto.

Da mesma forma que existem muitos motivos, como eu disse acima, para explicar o mal desempenho acadêmico em geral, também existem muitos motivos para explicar esta dificuldade específica e básica. Pretendo sim, voltar a este assunto mais vezes, mas por hora e para não extrapolar o espaço desta coluna, fica uma dica para o leitor: quando você vir dados estatísticos de quantos alunos temos cursando o ensino fundamental, o ensino médio e o ensino superior, não leve a sério. A quantidade aqui não significa qualidade. Aliás, penso que não significa quase nada.

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