Apresentação da Coluna do Totó. Por Luis Fernando Amstalden

Posted on 18 de janeiro de 2013 por

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Totó Foto

Antônio Carlos Danelon é alguém que conheço desde minha infância, quando ainda era forte a corrente da Teologia da Libertação na Igreja Católica. Com ele aprendi muito. Lembro-me de uma de suas palestras, na qual ele insistia que o Evangelho “pede” coerência. Nunca me esqueci desta fala e, até hoje, isso é algo que eu procuro manter na minha vida.

Totó, como os amigos e parentes o chamavam e chamam, manteve. Nunca se vendeu, nunca se corrompeu e, acima de tudo, nunca desistiu de viver e proclamar a necessidade de um mundo mais justo. Penso que ele manteve vivo o espírito do cristianismo engajado, aquele que não se restringe aos templos e não incentiva fiéis arrogantes, que pensam serem os únicos “escolhidos”. Este cristianismo, que eu conheci na minha infância e juventude está meio marginalizado. Não aparece nas televisões, dominadas por padres e pastores midiáticos, que dançam, cantam e vendem falsas esperanças e uma religião superficial e castradora. Não está mais nas grandes cerimônias religiosas e muito menos no discurso das Igrejas “oficiais”. Lamento pela pequeno número de pessoas que ainda o vive, mas não pela falta de fama desta corrente cristã. Cristo nunca quis ser “showman”, nunca quis acumular riquezas e realizar suntuosas cerimônias. Se quisesse, não teria vivido entre os pobres e não teria feito sua Última Ceia com singelos pão e vinho.

O cristianismo que o Totó defende continua. Ele está na vida de centenas, milhares de pessoas que ainda buscam a justiça e não se calam ou conformam com a injustiça. Está com milhares que não aceitam a ideia de que “o mundo é assim”, mas pensam que o mundo pode ser muito diferente, muito melhor e não têm medo de defender isso. São pessoas que se interessam por política sim, que se interessam pelo meio ambiente e com a justiça material, porque pensar e lutar em relação a tudo isso é ser o “sal da terra”.

Claro que todas estas pessoas erram. Todos nós erramos. Mas a meu ver errar buscando é melhor do que errar por passividade e conformismo. Estas duas características costumam ser atributos daqueles que são conformistas ou coniventes com o mundo injusto. Os que buscam a justiça, mesmo errando, geram o movimento, a reflexão e a experimentação. E destes é que vem a mudança, não da passividade.

É com prazer e orgulho que apresento a vocês a “Coluna do Totó”. Agora todas as sextas feiras ele vai escrever neste Blog, como já havia fazendo a tempos, mas sem um dia fixo. Leia, debata, concorde ou discorde, mas busque com ele e conosco o pensamento, a reflexão e um mundo melhor. Abaixo, o primeiro texto já oficialmente colocado.

OVELHAS Por Antônio Carlos Danelon

A mensagem de Jesus não condiz com o marasmo que estamos vivendo, pelo menos muitas comunidades da Igreja Católica de Piracicaba. Onde, afinal está a alegria de pertencer ao Reino; o amor que nos uniria e nos faria referência; os dons postos a serviço; a coragem do testemunho e até mesmo as perseguições?

Não vejo, mas ouço falar de ricas experiências feitas por comunidades abertas aos sinais dos tempos e ao Espírito que renova todas as coisas. Daqui donde estou no entanto, sinto-me como ovelha de um rebanho que se reúne para balir. O que devo cantar rezar e ouvir já vem pronto e escrito. Espontaneidade, interação e acolhimento? Ora, em geral mal se olha na cara de outro; do jeito que se chega se sai, sem uma amizade nova a mais. Se na assembléia tiver alguém sofrendo; desempregado ou precisando de algo ninguém fica sabendo Na rua nem se saúda, embora lado a lado se estivesse na igreja. Gosto de minha comunidade e vou todos os sábados ou domingos à missa, mas quero mais. Não é só isso que Jesus veio trazer. Já vi melhores gestos de fraternidade em cadeias, arquibancadas de futebol e até no carnaval.

Existem padres que se esforçam para animar a assembléia incrementando a liturgia e até fazendo missas de cura e libertação – como se Jesus já não nos tivesse libertado definitivamente. Acaba que quem oferece melhor espetáculo tem maior auditório. Não é a Palavra e o compromisso com a comunidade que atraem certos tipos de ovelhas, mas o pastor, especialmente o traquejado ou aquele que lhes oferece repouso no espírito, afinal viver fugindo de si e do mundo cansa. Empapuçadas do capim que a Santa Madre oferece – apesar do riquíssimo e imenso estoque de iguarias que possui – as ovelhas se tornaram exigentes, não de consistência, mas de variedade. Se por outro lado, algum padre quiser mudar as coisas elas se mandam ou reclamam com o bispo até que ele se enquadre ou vaze.

Na maioria das paróquias o padre é o centro. Se ele estiver a fim de alguma coisa, vamos lá, mas devagar que o santo é de barro; se não estiver, melhor ainda; serve de justificativa para o marasmo, falta de ousadia e engajamento. Muitos Conselhos Pastorais viraram comissão de finanças. Além de amortecer conflitos entre egos e pastorais, neles se discutem formas de arrecadar dinheiro para reformar a igreja, construir salas e salões – que ficam ociosos na maior parte do tempo; pagar os salários do pessoal, do padre (muitos deles meros funcionários da Santa Madre) e saldar contas. Por isso é mais urgente discutir galinhadas e bingos que estratégias de evangelização. Muitos leigos se sentem engajados na Igreja por venderem rifas e trabalham nas festas.

Estou longe de ser um bom católico apesar de amar muito a Igreja. Mas não estou contente. Pessoas pagam mercenários para “sentir” Deus em suas vidas; o mundo se mata em busca de luz e paz; jovens se enterram nos vícios à procura de um sentido para a vida; pobres cada vez mais distantes; políticos picaretas transformam a cidade num inferno e nossa Igreja – que se diz portadora da salvação – dormindo como os apóstolos no Getsêmani. Talvez Sodoma receba compaixão maior que nós no Dia do Juízo.

Fazer benemerência só prolonga a injustiça. Igreja é povo que tem proposta transformadora. Até as empresas buscam participação, horizontalidade e interação por ser a melhor estratégia, aliás, a mesma de Jesus. Os leigos não querem mais ser tratados como ‘leigos’. São poucos, mas querem opinar, planejar, executar e participar da alegria de anunciar o Reino. Além de seu direito é seu dever.

“Comunidade sem participação plena e verdadeira, não é comunidade”. (Renold Blank). E, digo, se não é comunidade Jesus não está nela.

Antônio Carlos Danelon é Assistente Social. totodanelon@ig.com.br