Crônicas de Telópoli – O que sobrou do céu (Overture).Por Fábio Casemiro

Posted on 11 de fevereiro de 2013 por

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FAbio H

(Fábio Casemiro, o H, é uma das pessoas mais inteligentes que conheço. Inteligente e inquieto, aquela inquietude frente a vida que só  os que aliam a sensibilidade à inteligência possuem. Uma inquietude que o leva a muitos campos, como as artes marciais, a música, a poesia, a filosofia e a escrita.  Que o dota de um humor rápido e mordaz que demonstra seu raciocínio rápido. Ele é responsável por um dos textos mais acessados deste Blog, o “Memórias Póstumas de um Educador Suicida”. Agora, para minha alegria, ele se torna um colaborador constante do Blog, publicando todas as segundas Segundas Feiras do mês. Um duplo dois, que se inicia neste segundo dia, do Ano da Serpente no horóscopo chinês. A coluna? Telópolis, a cidade do extremo ou a cidade do fim. Aproveitem. Amstalden)

 

A cidade do fim; a cidade no fim: enfim, a cidade. Telos significa, do grego, “final”, “extremidade”. Eis o que temos, a cidade que sobrou do armagedon. Sobre esta coluna, nós como cidade humana, como consciência crítica… Os maias erraram e sobraram os nós. Por algum tempo fiquei pensando se o mundo não havia mesmo acabado e vivíamos uma espécie de sonho post-mortem. Não sei se o mito ancestral tocou você, mas no dia 21 não te deu uma sombra de dúvida, pelo menos um gostinho de “ao menos algumas estrelas cadentes surgirão do céu?” Pois é, em mim, deu. (Acho que foi a nova realidade da síndrome de facebook, transportando-nos para uma Idade Mídia: boatos são fatos, e quem quiser que acredite nas utópicas declarações pró-privacidade das redes socias… Wake up, Neo! Mas isso fica para outro texto).

Crendices e fetiches à parte, veio um sentimento bom à minha mente, algo que me impelia, de verdade, a tomar de vez consciência da finitude, da nossa condição frágil de que, um simples pum solar destruiria pirâmides, montanhas, redes sociais, máquinas de algodão doce, todas as ampolas de cerveja e o intocável inferno de wall street – viu? No fim, não é tão ruim assim.

O que nos sobrou é a cidade que somos… A cidade que queremos ser. Mas entenda que cidade é metáfora, é condição humana. Da antiguidade longínqua para cá, a cidade é o lugar do humano por excelência. Jacques Le Goff, historiador francês da história das mentalidades, numa de suas obras nos pergunta: “Mas afinal, o que é uma cidade?” Em seguida, responde que cidade é o lugar, por excelência, de “troca”. Lindo. Lugar de troca. Cidade é o lugar do onde, do como, do quando um humano troca qualquer coisa com outro humano. E daí? Daí que a cidade é o lugar – concluo eu – de humanização do humano. Porque o humano é mais humano quando troca. O humano torna-se mais humano pela linguagem (que nada mais é do que troca). Então perguntemos “Que cidade queremos ser?”

Utopia era a ilha de Thomas Morus. A cidade pode ser uma ilha. A nós cabe saber qual água nos rodeia – e nessa ilha do apocalipse que nos tornamos – em quais mares queremos erguer nossa bandeira. Na ilha de Morus, ainda havia escravidão. Brasil é nome de ilha. O nome resgata o mito celta da paradisíaca ilha de Iz Brazil. Na nossa ilha teve – e tem! – escravidão; nossa terra tem palmeiras, tem Corinthians e tem muitas outras lutas religiosas (inclusive entre diferentes espécies de cristãos!).

Calípoli não era ilha, era uma sólida república, cidade plantada nos ideais de Platão. Filósofo grego que acreditava na beleza – do grego, Kalos = beleza; Pólis = cidade – para tal erigiu uma obra em que seu protagonista, Sócrates, conversando com outros gregos tratava da formação do cidadão nessa cidade da beleza.

Nossa cidade não é a da beleza. A nossa cidade é a cidade do fim. Melhor: em nome de uma certa beleza muita coisa boa se fez, e muita coisa pior… Aushwitz era como uma cidade. Acordava, dormia, produzia. O sonho de Hitler era antes de tudo um modo de compreender a beleza. Quantas vezes não se matou, não se prendeu, não se queimou pessoas, cidades inteiras, ao longo de todas as nossas Histórias, em nome de uma norma, de uma regra, de uma certa proposta de beleza. Ainda vejo muito dessa vontade de conversão e de higiene, todos os dias, na cabeça de homens e mulheres de nossa cidade, passeando – são fantasmas – e por vezes são mensagens pré-moldadas, imaculadas, no facebook. Tenho medo da Telópoli que querem erguer. Sou contra. Levanto. Me troco, vou prá rua trocar, buscar nos olhares das pessoas, ainda que misantropos, na tela do seus smartphones, uma resposta ou convite… Óbvio que uso da rede, não há cidadania para aquém da internet: mas sem olhos, como fica difícil colher as vontades (e aí me lembro da Blimunda em jejum, colhendo vontades junto com o soldado Baltazar, em Memorial do Convento de Saramago).

 

*

 

Essa coluna de crônicas é antes diário. Diário a muitas mãos, porque espero que mexas, que roube, que a continue, que a faça viva e que, principalmente, a traia. Mas antes é asfalto, feira, tijolo, placa de contra-mão e qualquer outra ferramenta, tema ou proposta para que se erga da terra – sem recusá-la, que se diga – a Telópoli que queremos ser. A anti-calípoli ou pós-calípoli ou quiçá calípoli como cidade para calíope, míope, afagando com seus calos, calopsitas. Sem dó, nem penas: ninguém há de ser, na cidade do fim do mundo, (Ah…. Overmundo) papagaio de pirata pegando carona de sujeito caolho e com perna de pau.

Contra a ciência a alegria (Gaya Scienza), contra a fé de mais, fé de menos, ainda que, cientificamente, sejamos cadáveres adiados à feder.

Então que se fecunde ainda mais o mundo, sobre o mundo e assim overmundando, cavalguemos nossos sonhos sem a cegueira boba da distante ilha de Platão: a verdade se caça aos bandos e algumas sempre estão a fugir… Quem acertar, que aceite a caça e, de jeito ou de outro, assuma a coça.

Sem perdão, sempre na responsa… A vida é assim: não há lei que te impeça de pular no poço, o aviso na porta é ironia da vida: deus é a voz na caixa do elevador, os santos indicam os andares (pode ser mentira, são só lampadinhas!) e satanás é o freio de segurança.

Não querendo atrapalhar sua viagem, quero ser a sua imagem no espelho da caixa, apontando nossas espinhas, se divertindo com a musiquinha (é sempre Garota de Ipanema)… Quero ser a voz que te desperta além da insuportável menina idiota do telemarketing, lembrá-lo que não há promoção, não há juros mais baixos que o do cartão. Para cima é para baixo, todos querem chegar ao seu destino, mas têm medo do fim. A câmera filma seu dedo no nariz… Agora é tarde, os agentes da CIA estão quase chegando e vão te levar para o interrogatório.

O que você faz? É a sua, é a minha vida… O que faremos?

Lembraremos que o elevador é o mundo, é um barco em caixa de pandora de nome Telópoli, a cidade do fim. É tudo que nos restou: 2012 passou e é mais uma segunda chance que temos, além da adorável companhia de ratos e de baratas: metafísica, política, filosofia, beleza, poesia são alguns dos andares que incrementam nossa aventura nessa barcaça sem freio. São pontos extras que serão lançados no tabuleiro enquanto você impreterivelmente volta para a caixa que te faz lembrar: só temos mesmo a nós mesmos… Isso é Telópoli.

Então: vai ficar sonhando esfomeado num Platão vazio ou vai encher o bucho no por quilo do primeiro andar, junto com os participantes do mais recente reality show? (Te convido à cafeteria, onde podemos debater sobre o manual de instruções).

Aproveita… há de haver uma beleza que ganha com a inteligência e que serve aos que se arriscam vê-la… Dizem que é a beleza do fim, afinal, o fim é a gente que faz, na prática.

Bora Telópolis?

Télogo!

 

Fábio Casemiro

 Historiador; Mestre e

  Doutorando em Teoria Literária pela Unicamp