A Ressurreição e o dia a dia. Por Luis Fernando Amstalden

Posted on 28 de março de 2013 por

5



Magrinha e baixinha, mas cheia de energia, é difícil acreditar na sua idade. Setenta e cinco anos. Enquanto lava a louça do almoço, ela conversa comigo. Sim, ela já está aposentada, auxiliar de enfermagem, trabalhou décadas num hospital. Agora cuidou de minhas tias por um mês, para cobrir as férias de outra cuidadora. Não é um trabalho fácil. Uma das tias está na cama, não fala e não se levanta pelo avanço do Alzheimer. A outra tem demência senil, e chora porque Dona Rita vai embora. É Dona Rita quem a consola, sorri, brinca com minha tia e lhe garante que vem visitá-las sempre.

Falamos sobre saúde e hospitais. Ela me surpreende. Conta sobre a doença do filho, um câncer descoberto por acaso e já generalizado. Do diagnóstico em diante ele não saiu mais do hospital e morreu em um mês. Retomando a louça, ela descreve os sintomas, os exames, o primeiro diagnóstico, totalmente errado e como, a partir de sua experiência, ela levou o filho a outra cidade, pagou do bolso médicos e exames e então receberam a notícia que ela esperava, mas desejava não ser verdadeira.

Vendo-a relaxada, ainda sorrindo para minha tia, pergunto como ela está, como se sente tão pouco tempo depois da morte do filho. A resposta – “ a vida continua…”. Daí fico sabendo um pouco mais. Infelizmente não é o primeiro filho que ela perde. Perdeu outro, muito tempo atrás, jovem ainda, de acidente de automóvel. Naquela época, ela conta, sofreu também. Chegou a pesar vinte e seis quilos, entrou em depressão. Desta vez também sofre. Sofre a perda e sofre pela tragédia do serviço médico que talvez, talvez pudesse salvar seu filho. Mas… mas a vida continua e é preciso viver. Assim ela trabalhou este mês, trabalhou numa situação também de sofrimento humano, mas enfrentou, assim como enfrentou o sofrimento do filho e o seu próprio. E ainda sorri, e ainda consola minha tia.

Penso nas minhas perdas, perdi pessoas amadas também, mas não filhos. Sei que é uma das piores dores da humanidade, depois do trauma de guerra. Penso nas minhas reações frente a perdas menores, um trabalho, algum dinheiro, um amor que me deixa ou me fere. Penso nas minhas reações em como caí, como me deixei abater e fica muito claro, Dona Rita é mais forte do que eu.

Não sei bem como, o assunto passou para a ajuda aos outros. Dona Rita me diz que sem sermos capazes de ajudarmos uns aos outros, a vida fica insuportável e sem sentido. Sim, ela é religiosa, mas em nenhum momento falou de religião comigo. Apenas na necessidade de enfrentarmos a vida e ajudarmos uns aos outros. Não sei por que ela trabalhou para nós neste mês. Se não pretendia ficar, como não ficou, então não foi simplesmente por dinheiro. Aliás, não pudemos pagar o que o serviço valia, então, porque ela ficou?

Fiquei com vergonha de perguntar. Mas, ao mesmo tempo, tive a sensação de que talvez ela tenha ficado exatamente pela morte do filho, tão recente. E não me refiro a simplesmente “ocupar-se” para não remoer demais a perda. Talvez ela tenha ficado por outro motivo. Talvez ela tenha ficado para dar um novo significado a sua vida e a sua perda. Foi-se o filho, ela poderia se recolher totalmente, nunca mais buscar contato com doentes. Mas não se intimidou,  ajudou duas doentes. Talvez ela tenha buscado ser útil, ajudar para “resignificar” sua vida. Talvez este “resignificado” seja construído pelo enfrentamento da doença, inclusive da doença de minhas tias. Não, não há cura para elas, assim como não houve cura para o filho da Dona Rita, mas ela enfrenta a doença e, desta forma, talvez celebre a vida. Depois da conversa, lembrei-me de Eric Clapton que ao perder seu filho de apenas quatro anos, em 1991, num acidente, entrou em desespero. Depois de um tempo recolhido, Clapton compôs uma canção maravilhosa. A música “Tears in Heaven” que fala de sua dor ao perder o filho. Dor transformada em arte, dor transformada em ajuda, mortes transformadas em vida. Não são estas as ressurreições do dia a dia?

As perdas acontecem em nossa vidas, e acontecerão até a perda máxima, a da nossa própria vida. Até lá, eu gostaria de aprender a sofrer menos com minhas perdas, principalmente aquelas menores, que às vezes me parecem tão grandes. Gostaria de dar outro significado a elas, celebrando a vida, não a morte. Se eu não conseguir fazer isso com pequenas coisas, jamais conseguirei fazer com as perdas maiores, que, um dia, virão. Este aprendizado talvez seja um dos sentidos da Páscoa, da Ressurreição.

Muito obrigado Dona Rita, pelo que a senhora fez pelas minhas tias. E muito obrigado pelo que fez por mim, levando-me a pensar na covardia existencial que as vezes me derruba. Obrigado por me fazer pensar que preciso proceder mais “ressurreições” em minha vida. Feliz Páscoa, Dona Rita, e que aprendamos todos a “ressuscitar”.

PS: Meus agradecimentos a minha amiga e colega Renata Totti, que interpretou tão bem a situação através do termo “resignificado” e, claro, meus votos de Feliz Páscoa a todos.

Posted in: Artigos