A ciência, a ética e Hiroshima. Por Luis Fernando Amstalden

Posted on 11 de agosto de 2013 por

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Quando, no século XVIII, surgiu o Iluminismo, o movimento cultural que criou a ciência moderna, havia um grande otimismo dentre os cientistas que acreditavam que no futuro seria possível resolver todos os problemas humanos, desde a fome e as doenças até a harmonia  social. No século XIX este otimismo se fortaleceu e se popularizou. Energia elétrica, descobertas biológicas e médicas, engenharia, psicologia, todas as ciências e técnicas pareciam apontar para um futuro no qual a humanidade poderia viver em paz e abundância e, até mesmo, viver para sempre.

Este otimismo, por sua vez, ainda existe. Ainda vejo gente (da área ou não) afirmando que os transgênicos, por exemplo, vão acabar com a fome no mundo; ou ainda revistas apregoando que em breve a medicina criará condições para que a vida seja eterna. Pode até ser que isso venha a  acontecer, mas eu tenho minhas dúvidas. Precisamos nos  lembrar que a ciência por si só não cria um mundo melhor. É preciso que ela venha acompanhada de uma ética de bem comum, de progresso para todos e de humildade diante da natureza. Sem esta ética, o conhecimento científico pode criar formas novas de matar, destruir, pode criar alimentos que nos envenenam, mas geram lucros para empresas, pode fortalecer ditaduras e pode ainda, como tem feito, acelerar a destruição do meio ambiente, embora a própria ciência nos diga que esta destruição também nos matará.

Esta semana, foi “aniversário” do lançamento de dois artefatos científicos de demonstram o que pode fazer o conhecimento sem ética. As bombas atiradas em Hiroshima e Nagazaki. Não é tão simples assim discutir a situação. Não se pode, por exemplo, negar os crimes de guerra do Japão. Mas por outro lado, será que elas eram realmente necessárias? Será que serviram para derrotar tropas ou para massacrar uma população? Alguns autores defendem a hipótese de que o bombardeio teve um outro fim, demonstrar ao mundo e principalmente à extinta URSS, que os EUA tinham esta nova e terrível arma.

Porém, independente das questões militares, uma coisa é fato. A criação da bomba demonstrou que, ao contrário do que os otimistas esperavam, não resolvemos todos os problemas do mundo e, ao contrário, a ciência criou outros. Criou a possibilidade real de um apocalipse para a vida na Terra.

Não acho que devemos negar o conhecimento. Muito pelo contrário, acredito que é preciso desenvolvê-lo mais e mais. Mas é preciso rever os valores que estão por detrás deste conhecimento. São valores para o bem comum, para o respeito e a humildade perante a vida ou são valores de lucro, poder e controle?

Vinícius de Moraes nos pede para lembrarmos isto em seu poema “Rosa de Hiroshima”, depois musicado por Ney Matogrosso. Lembre do poema, lembre de Hiroshima quando estiver quase esquecendo a necessidade absoluta de valores sólidos e amplos para dirigir nossas vidas, seja na ciência, na política, na economia ou no nosso próprio dia a dia.

Abraços.

Amstalden

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