O menino e o cemitério. Por Luis Fernando Amstalden

Posted on 6 de novembro de 2013 por

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Quando eu era criança, minha mãe e sua irmã iam freqüentemente ao cemitério, ao túmulo de seus pais. Eu, meus irmãos e primos íamos também, principalmente na época de Finados. A visita, no entanto, não se limitava ao jazigo dos avós, mas também de outros familiares e conhecidos já mortos. Para mim era uma angústia. E não era a possibilidade (na época, plausível na minha mente infantil) de ver um fantasma lá, mas a morte em si que me angustiava. Eu me sentia rodeado pela morte, tanto pelos túmulos soturnos, com fotos desbotadas, quanto pelos anjos de feições sérias e tristes. Mais ainda, sentia a morte rondando nas conversas dos adultos, que relembravam detalhes do falecimento dos parentes e amigos. O câncer, o enfarto, a tuberculose e tudo o mais que os matara e como os matara era também assunto. Mas o fato é que eu também  sentia medo, muito medo, tanto de morrer quando de como morrer. E este temor aumentava quando eu prestava a atenção nas conversas. Às vezes outro adulto conhecido se juntava e também relatava as suas perdas e como aconteceram. Bem, afinal, eu não podia esperar outra coisa, uma vez que estávamos no cemitério.

Eu sofria lá e depois de sairmos. Lembro de sonhar a noite com túmulos e alamedas desertas, cheias de anjos de mármore escuro  ao lado de tumbas mais modestas e decaídas. Tanto no sonho quanto na realidade, não sei o que me incomodava mais, os jazigos luxuosos ou os humildes, de tijolos mal conservados. Ambos eram faces da mesma coisa. Do fato de que nem o dinheiro, nem o poder e o prestígio, nos livram da morte. Não me lembro do porque eu ia. Talvez não houvesse com quem ficar, talvez eu próprio não quisesse deixar de estar com meus primos, mas a cada vez que ia, voltava me sentindo mal e isto durava alguns dias.

Pois bem, em uma destas visitas, no túmulo de meus avós, enquanto minha mãe e minha tia depositavam as flores e faziam suas orações, encontrei uma pequena fresta entre as placas de granito. Não o suficiente para ver por dentro do jazigo, mas apenas causada pela dilatação que afastou as duas, deixando um vão com cimento ao fundo. Dentro desta fresta, havia dois pequenos ovos. Pequenos demais para serem de passarinhos, além do fato daquela rachadura não parecer um ninho. Sem que os outros vissem, e com cuidado, tirei os dois ovos e os coloquei em uma caixa de fósforos que havia encontrado antes. Recheei a caixa com umas folhas secas esmagadas e consegui levar tudo sem quebrar. Em casa mostrei ao meu pai, que me disse que eram ovos de lagartixa. Disse também que estava naquele lugar porque era quente lá, e os ovos eclodiriam com o calor. Perguntei se eles ainda poderiam “vingar” e meu pai disse que sim, se ficassem protegidos e em um lugar quente. Corri ao quintal e achei uma fresta em um muro de tijolos. Coloquei os ovinhos lá, e torci para que ficassem seguros.

Nos dias seguintes, depois das aulas, eu ia até o muro, desejava ver as lagartixas nascerem. Temia que isto acontecesse durante a manhã, enquanto estava na escola, ou pior, que eles não abrissem ou ainda que caíssem ou virassem comida de outro bicho. Numa tarde, cheguei esbaforido e encontrei um dos ovos partidos. Não havia sinal da lagartixa, ela nascera de manhã, provavelmente, e se fora. Muito decepcionado, peguei o outro ovo,  acreditando que aquele não iria abrir. Mas abriu logo que o coloquei na palma de minha mão. Fiquei paralisado e fascinado. Para mim foi um  milagre ter aquele pequeno ser na minha palma.  Não me movi e durante um tempo e a pequena lagartixa se virou, livrou-se do resto do ovo e fugiu pela minha mão, indo parar no muro. Ali ficou mais alguns segundos e também sumiu.

Eu gostaria de lhes dizer que depois, daquele fato eu tive uma revelação mística e perdi o medo da morte e da doença. Mas não perdi. Continuo me angustiando com elas e com sua inevitabilidade. Porém, criança que era, descobri que a vida está em todo lugar, inclusive em um cemitério. E que os seres nascem, mesmo em meio à morte “eternizada” em granito e nas conversas tristes. A existência daquela vida surgindo em minha mão, me pareceu tão impressionante quando a ausência das outras, relembrada nos jazigos. A morte é um mistério, mas a vida também é, e quem pode dizer que elas não fazem parte do mesmo milagre? O que eu perdi, na verdade, foi o medo de entrar num cemitério.

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