O cadáver oportuno. Por Luis Fernando Amstalden

Posted on 19 de fevereiro de 2014 por

13



Foto: Domingos Peixoto AFP

Foto: Domingos Peixoto AFP

Desde que as manifestações populares atingiram o auge, em julho de 2013, observamos grupos mais violentos se confrontando com a polícia e depredando prédios e estabelecimentos. Naquela época eu argumentei que, se isto era uma tática destes manifestantes, era também, a meu ver, uma tática errada, que afastaria boa parte da população dos manifestos (por temerem a violência) e resultaria no enfraquecimento das passeatas. Não posso afirmar que  esta foi a causa principal do esvaziamento das manifestações, mas penso que foi pelo menos uma das causas. De agosto de 13 para cá o número de participantes e de eventos caiu muito e isto sem que a maioria dos problemas que levaram as pessoas para as ruas, tenha sido resolvida. Por outro lado, nas manifestações que continuaram a ocorrer esporadicamente, os episódios de violência aumentaram, talvez na mesma proporção em que manifestantes pacíficos tenham se afastado. E dentre as muitas faces deste fenômeno, um me intriga em particular. Por que a tática adotada tem sido esta? Por que os que continuam nas ruas usam ainda a violência?

De tudo que pude ler e observar, penso ser possível classificar os manifestantes violentos em três grupos principais. O primeiro grupo seria o daqueles que extravasam a própria frustração e revolta. Vêem na agressão uma forma de manifestar toda a sua tensão e irritação. Este primeiro grupo não me parece ter uma ideologia definida e ao mesmo tempo demonstram estar acostumados a sofrer e valorizar atos violentos. Suas atitudes são mais uma expressão de revolta do que um projeto social ou político. O segundo grupo que penso ser possível identificar é o de militantes de pequenos partidos ou grupos com alguma ideologia. Vão desde grupos de extrema esquerda até os de extrema direita. Os de esquerda utilizam a violência como forma de forçar a reação violenta do Estado e, com isso fazer com que este mesmo Estado demonstre seu caráter real, que seria o repressivo. Parecem seguir uma publicação famosa dos anos sessenta, o Minimanual do Guerrilheiro Urbano, escrito por Carlos Marighella, durante seu combate à ditadura militar. A julgar pelo número de reproduções do “Minimanual” que encontrei na internet, minha hipótese encontra fundamento.  Os grupos de extrema direita, por sua vez, usam da violência para criar a desestabilização de um governo que interpretam como esquerdista. Para eles a idéia é criar um caos que leve a desmoralização do governo do PT. Comentários em grupos de redes sociais e outros sites que encontrei, reforçam esta possibilidade. O último grupo é, talvez, o mais eficiente. Trata-se dos infiltrados, pessoas pagas por terceiros e que começam os distúrbios, causando um efeito de desbloqueio que leva os demais também à agressão. Nas manifestações de que participei, tenho certeza de ter identificado alguns assim. Também por duas fontes diferentes, soube de gente contratada para criar a agressão. Soube também da infiltração de membros do serviço reservado da polícia em algumas manifestações (se somente para observar ou para provocar, eu não sei). Mas, o que visa este terceiro grupo? A resposta está no próprio efeito que citei no início. A desmobilização. Nas primeiras manifestações, vi famílias, jovens, adolescentes e até crianças participando. Mas agora, quem se arrisca a ir com seus filhos a estes eventos? Não estou acusando ninguém, mas levantando uma possibilidade. A de que baderneiros profissionais estão sendo pagos para desestabilizar não o Estado ou o governo, como querem os ideologizados, mas sim os próprios protestos. E, se eu estiver correto, eles estão conseguindo. A morte do jornalista Santiago Andrade, ocorrida depois de ser atingido por um rojão em um protesto, foi o ápice desta desmoralização, abrindo espaço, inclusive, para que leis novas sejam criadas para enquadrar manifestantes. Santiago, além de uma vítima inocente, tornou-se um cadáver oportuno, cuja morte afasta a população das ruas e abre espaço para uma repressão mais estruturada. Talvez você ache que eu estou paranóico ou me tornando adepto das teorias da conspiração. Mas pense bem. Se você fosse um político e houvesse sido duramente questionado por milhares de pessoas nas ruas, em julho passado, não seria ótimo que o movimento acabasse? Por que não colocar, então, alguns “assalariados” para desmoralizar as manifestações? Se eu estivesse no lugar destes políticos, com os valores que eles demonstram ter, eu pensaria seriamente em contratar gente para criar o tumulto…

eu na câmara

Nesta foto uma experiência minha na grande manifestação ocorrida em Piracicaba em julho de 2013. Me coloquei entre a polícia e manifestantes que queriam agressão. Eu sou “a careca brilhando” à esquerda da foto, de costas. Mas reparem em um rapaz que está a minha direita, em frente, de cabeça raspada e mochila nas costas. Bem… não era exatamente um manifestante espontâneo…

Posted in: Artigos