Nossa corrupção cultural. Por Luis Fernando Amstalden

Posted on 26 de março de 2014 por

6



escravidc3a3o

Imagine viver na época da colônia, quando a maioria das terras estava nas mãos de pouquíssimas pessoas, senhores de engenho. A lei não lhe valia, ou pelo menos, não na prática. Aos senhores tudo era permitido, tudo era possível. Eram deles as terras, as forças armadas, as armas, o aparelho do Estado, o dinheiro, a produção e até as pessoas. E além de todo aparato legal, econômico e burocrático, a Igreja também estava ali, pregando a aceitação e a docilidade. A cultura religiosa valorizava o sofrimento e desestimulava a resistência, justificando a estrutura do poder. Se você fosse negro, mulato ou branco pobre, estaria na periferia do sistema social A você restariam dois caminhos: a rebelião (que as vezes era a fuga dos escravos) ou a subserviência e a busca da proteção do senhor. Tentativas de rebelião houveram, mas foram massacradas. Resistências individuais também, mas tampouco levaram a alguma mudança. Assim, o grosso da população pobre, escrava ou livre, se submetiam, aceitavam o sistema injusto e, aí está o diferencial, se integravam a ele, não reagindo e, se possível, arrumando um lugar privilegiado dentro daquela estrutura.
Logo se você não tinha força para combater o senhor de escravos, pelo menos o adulava e tentava arrumar um lugar de criado na casa grande. Se fosse livre, mas não tinha direitos plenos de cidadania pedia a proteção do senhor para ter justiça ou para ter algum privilégio. O fim do Império não mudou as coisas, pelo menos não muito. A República, embora tenha trazido alguns avanços, foi proclamada pelos “barões do café”. De uma elite canavieira passamos ao domínio de uma elite cafeeira. O voto passou a existir, mas restrito e direcionado. Era a época dos “currais eleitorais”, do voto de “cabresto”, cuja decisão do peão, do pobre nas urnas era tomada não por ele, mas pelo “coronel” que dominava a área. A República trouxe muitas mudanças na teoria, mas poucas na prática. Você pode argumentar que isto já passou e que agora as coisas deveriam ser diferentes. A era dos senhores e dos coronéis já se foi, logo não é mais admissível que tenhamos tantos privilégios para os que comentem crimes e são ricos, tanta corrupção. É verdade, não deveríamos e não devemos, mas ainda temos todo este desmando. E uma das causas disto (existem outras, mas aqui não cabem) está exatamente no fato de termos adotado a cultura do privilégio, do “jeitinho”, do apadrinhamento. Se a forma de sobreviver em uma sociedade opressiva era ganhar favores, então adotava-se esta prática. Se em uma sociedade desigual a única chance é aderir à desigualdade encontrando um “lugar” privilegiado, então se incorpora isto na nossa cultura. Daí o apadrinhamento, a “tolerância” com a corrupção, com os desmandos e privilégios, pois nós passamos a aceitar que “é assim mesmo” e que se você não entra no esquema, está perdido.
E esta “corrupção cultural”, que tolera os privilégios porque também os busca, ao invés da igualdade, se expressa não somente em grandes fatos, mas no nosso quotidiano. Quando furamos uma fila, pedimos um “favor” a um político ou mesmo estacionamos em lugares proibidos ou na frente da casa de outras pessoas, estamos reproduzindo a cultura do privilégio, do individualismo que desrespeita as regras em benefício próprio. Ou seja, somos corruptos nas pequenas coisas e por isto acabamos por “tolerar” a corrupção nas maiores. Se você quer mesmo uma mudança, comece a mudar a sua postura e a sua cultura. Respeite as regras, desde as menores, e exija o mesmo respeito em todas elas. Com isto você terá dois efeitos. Primeiro, começa a construir uma cultura melhor, mais cidadã e a espalhar tal cultura. Segundo, ganha efetivamente o direito de reclamar e exigir. Caso contrário, como exigir a honestidade que também não temos?

corrupcao

Posted in: Artigos