As chuvas, os políticos e as responsabilidades. Por Luis Fernando Amstalden

Posted on 3 de junho de 2014 por

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Fonte da Imagem: www.uol.com.br

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Quando você olhar para o leito dos rios secos ou quase secos e quando abrir a torneira e não houver água, talvez responsabilize o clima (ou até S. Pedro…) pelo que está acontecendo. Talvez responsabilize toda a sociedade por adotar um modo de vida que não contempla o futuro, a sustentabilidade e, quem sabe (e isso é menos provável) responsabilize até a você e os seus por não ter sido mais cuidadoso com o seu consumo e suas atitudes. De fato, tudo isto, o clima, a sociedade e nossas próprias atitudes tem sim, sua parcela de responsabilidade na nossa estiagem. Mas, há alguém mais.

Desde o final da década de 70 já sabíamos que a nossa região poderia vir a sofrer falta de água pela construção do Sistema Cantareira, tanto que em 1979 ocorreu em Piracicaba a primeira passeata de protesto contra a construção do Sistema. Eu era adolescente e estava lá. Nos anos oitenta os cálculos ficaram mais alarmantes. Observando o uso e a forma como os recursos eram tratados em nossa região e rio acima, os técnicos e cientistas começaram a alertar para a urgência de se preservar e manejar o solo, os rios, as fontes, lagos e matas, bem como de se planejar a urbanização. Tudo isto para que não viesse a faltar água hoje. Nos anos 90 o prognóstico ficou mais alarmante com as projeções de mudança no clima e longas estiagens, como a de agora. Participei de muitos estudos assim, eu e muitos outros técnicos e pesquisadores de universidades e órgãos públicos. Fui, como outros, um dos que estava preocupado e alertando. Mas, salvo raras e insuficientes exceções, quase ninguém prestou atenção e muito pouco, diante do que seria necessário, foi feito. E desta forma, com toda a experiência de ter acompanhado o assunto, eu digo que temos alguém mais a responsabilizar pela falta de água que se avizinha, alguém com uma parcela maior, muito maior de “culpa”. Todos os políticos e homens públicos do Estado de São Paulo, em especial os daquelas regiões onde a água faltar com mais intensidade.

Eles todos, governadores, deputados federais e estaduais, senadores, prefeitos e vereadores estiveram e estão no poder desde os anos setenta, são responsáveis pela falta de água. Sabiam e deveriam saber o que estava acontecendo. Sabiam e deveriam saber o que os técnicos e cientistas disseram, mas não tomaram as medidas necessárias. E não tomaram porque é mais fácil construir pontes e estátuas de peixe do que regular o uso do solo urbano, evitar a especulação imobiliária, dizer não a construtoras que fazem prédios sobre nascentes, dizer não a quem desmata e deteriora o solo e mananciais. É mais fácil e lucrativo apoiar grandes grupos ruralistas e empreiteiras, que são sempre muito “agradecidas” do que limitar suas atividades em prol de um futuro. É mais fácil e prático terceirizar e tornar o abastecimento um negócio lucrativo do que entender a água como uma necessidade vital, que precisa ser garantida a todos. E, volto a dizer, com honrosas exceções, nossos políticos e gestores optaram pelos “caminhos mais fáceis” (e lucrativos para alguns) do que o caminho da busca da sustentabilidade. Ignoraram solenemente os problemas, as vezes por pura ignorância e outras por oportunismo. E a verdade é que se foram ou são ignorantes e oportunistas nossos homens públicos, não deveriam estar no poder, não o merecem e nem tem competência ou honestidade para exercê-lo. Gozaram do “prestigio” e das regalias de serem governadores, senadores, deputados, prefeitos, vereadores, mas, pelo menos neste caso (e na verdade em muitos outros) não fizeram a contraparte, não geriram nem planejaram o futuro. Agora todos nós colhemos o seco fruto da escassez. Agora nós somos instados a “economizar” e até ameaçados de multa se não o fizermos. Muito bem, economize, até porque você não tem opção. Mas faça algo mais. Não reeleja nenhum, nenhum deles. Não dê seu voto a ninguém que esteja no poder tempo o suficiente para ter feito algo e não fez, ou fez em benefício próprio. Cobre a conta, force os partidos a mudarem. Eleja sangue novo para que haja água nova, política nova e vida nova. E cobre este “novo sangue”, lembrando-o de que você vai ficar atento e não tem tempo para desperdiçar com quem não merece representa-lo.

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