Tempo de laranjas. Por Luis Fernando Amstalden

Posted on 29 de julho de 2014 por

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Hoje nem tanto, mas antigamente, quando não haviam tantas variedades de frutas desenvolvidas para produzir o ano todo, era comum falarmos em “tempo” de uma ou outra fruta para nos referirmos à época em que elas estavam disponíveis. Falava-se então em “tempo de mangas”, “tempo de uva” etc. Toda vez em que me lembro destas falas, penso que a cada dois anos temos um outro grande tempo. O “tempo de laranjas”. Mas neste caso não me refiro às frutas, e sim a outro tipo de “laranjas”, as “laranjas políticas”. Ocorre que “laranja” é também um gíria para determinar alguém que se suga e joga fora o bagaço. No caso, o “laranja política” é aquele indivíduo que se candidata a um cargo sem a menor chance de vencer. Pela nossa legislação, cada candidato traz votos que são somados e revertem em favor de seu partido e da coligação a qual pertence tal partido. O “laranja” vai trazer alguns votos para o grupo que acabarão por eleger outros candidatos, muitos dos quais já no poder e que são reeleitos indefinidamente. Em parte é por isso que temos tantas velhas raposas no poder a tanto tempo. Porque eles se apoiam no número total de votos que sua legenda obteve.

Agora, com a proximidade das eleições, estamos portanto no “tempo de laranjas”, tempo em que milhares de pessoas serão candidatas só para granjear votos para outros. Não serão eleitos e logo depois do pleito vão ser descartados, como bagaços atirados fora. Alguns sabem que é assim, que não vão vencer e que apenas carreiam votos para outros. Outros são mais ingênuos e, baseados em sua ilusão de popularidade, sonham com o cargo. Claro que nem todo mundo é bom “laranja”. Para ser é preciso ter alguma popularidade, algum destaque. Um bom “laranja” deve ser alguém conhecido, com alguma característica diferencial. Pode ser professor, ter lecionado para muita gente, ou pode ser um líder comunitário, um cantor de igreja, médico, comerciante popular ou até um vizinho prestativo. Por outro lado, pessoas exóticas e excêntricas também dão boas “frutas”. Neste último caso vale tudo: catadores de papel, clones de artistas, travestis, palhaços. Alguns destes últimos são até disputados, porque acabam por ganhar os chamados votos de protesto ou votos de ironia.

Grosso modo, no entanto, eu distinguiria dois tipos de candidatos “laranja”. Os “doces” e os “azedos”. Os “doces” são aqueles ingênuos, que de fato acreditam ter alguma chance e as vezes até tem bons propósitos. Os “azedos” são os que sabem a que estão se prestando e o fazem em troca de alguns “favores”. Os “doces” acabam até por fazer campanha, percorrem ruas e de vez em quando até gastam mais dinheiro com “santinhos” do que a verba originalmente recebida. Os “azedos” são mais “práticos”, embolsam verbas oficiais ou não, não saem de casa para fazer campanha e, quando são funcionários públicos, ficam meses de licença para “fazer a campanha”. Meses que podem ser usados de várias formas, inclusive como férias prolongadas. Um “laranja azeda” pode, também, cobrar, depois das eleições, algum cargo, algum benefício para si ou para outros. Isso, no entanto, depende de quanto ele “negociou” antes a sua candidatura.

A verdade é que dentre o grande número de candidatos, agora e daqui a dois anos, a maioria é “fruta” e não alguém com reais projetos e intenções. A maioria só mantém os velhos no poder. E a verdade também é que isso precisa mudar, pois cada vez que votamos em “laranjas”, elegemos “abacaxis”.

Pense um pouco nisso nos meses que vem pela frente.

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