Somos Pop. A Trilha Sonora. Por Maxx Zendag

Posted on 5 de agosto de 2014 por

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Quem sonhava em ver um cantor brasileiro gravar uma música-tema da Copa do Mundo de 2014 – a “nossa” Copa! – certamente viveu um pesadelo. A música produzida para ser o tema oficial do evento, “We Are One”, contou com a participação de Claudia Leitte, que garantiu ali seus 15 segundos de fama internacional. E tem mais: no CD oficial da FIFA, “Lepo Lepo” estava entre as faixas.

Mas nem tudo estava perdido, afinal fomos presenteados por Arlindo Cruz, que também compareceu com uma música só dele, e Alexandre Pires, que participou em uma canção interessante e que melhor representou o país num contexto global: “Dar Um Jeito” (o nome já diz tudo, não é?), que conta ainda com os acordes de guitarra de Carlos Santana, vocais de Wyclef Jean e mixagem do DJ Avicii.

No entanto, uma música ganhou enorme destaque na mídia: “La La La”. É nome deveras genérico, que por sinal nos leva a uma inevitável referência à música brasileira, afinal já tivemos nossos momentos “Ai Ai Ai”, “Tche Tcherere Tche Tche” e “Tchu Tcha Tcha”. Mas não nos deixemos enganar pela falta de originalidade do título: a canção em questão merece a atenção que vem tendo no YouTube e nas FMs mundo afora – em especial no Brasil.

Em “La La La” temos tudo o que agrada aos brasileiros: Carlinhos Brown, que sabe muito bem como representar a nossa cultura sem parecer clichê – como faz o próprio Pitbull com o videoclipe de “We Are One” –; Shakira, sempre amada pelos brasileiros por saber fazer no canto e na dança o que Ivete e tantas outras brasileiras de sucesso também fazem; a percussão do Olodum; e o refrão de letra e melodia fácil. O videoclipe, apesar de ter como tema central a Copa do Mundo, é patrocinado por uma empresa do ramo alimentício e vem com o intuito de promover uma campanha contra a fome mundial. Mas representa, como nenhum outro, a ideia da “união entre as nações em um só lugar”, sem se esquecer de destacar o país que sedia o evento, e a sua cultura.

Tudo o que foi exposto até aqui já explica que a rejeição dos brasileiros ao “tema oficial” escolhido pela FIFA parte da identificação dos brasileiros com a música de Shakira. Não se trata de mera “implicância” de um grupo de pessoas, comumente chamados de “haters”, internautas que odeiam e criticam a tudo e a todos. “We Are One” era latinidade barata, carnaval, futebol, tudo junto e (mal) misturado, além de não conseguir levantar o público – e não deveria ser essa a finalidade da “música-tema”? – o que se provou com a quase inércia da plateia nas arquibancadas durante a apresentação desta canção na abertura da Copa. No fim, “La La La” é que levantou a bandeira do Somos-todos-um-só na música, que pelo menos foi definida como “Hino” do evento.

E o que significa tudo isso? Muito mais do que crítica musical, afinal é um leigo que vos fala. Se o Olé Olá representa alguma coisa para todos nós, é o clima confuso que vivemos atualmente no país, politicamente falando. A desarmonia da canção serviu como analogia ao povo dividido entre os que queriam e o que não queriam a Copa aqui. Sendo que estes se dividem ainda em subgrupos. Não por acaso, pelo seu fraco apelo festivo, podemos agora considerá-la um presságio para o que veio a seguir: a decepção dos brasileiros pela derrota histórica no jogo contra a seleção alemã.

Dos que não queriam que o Brasil sediasse a Copa, tivemos os que juraram ódio ao evento, mas não resistiram à tentação de reunir-se com família e amigos para ver os jogos pela televisão. E aqueles que, mais coerentes, entenderam que a seleção não tem nada a ver com o fato de o nosso governo investir zilhões no evento em detrimento às questões que urgem no país, como educação, saúde pública etc., e mesmo contrários a isso não desistiram de torcer, seja pela TV ou nos estádios, por aqueles que foram nos representar. Houve os que desistiram de comprar ingressos para ver os jogos in loco pelo medo da ocorrência de manifestações violentas. E claro, como não podia deixar de ser, houve aqueles que aproveitaram a primeira oportunidade para dar o grito (de guerra) contra o atual governo, em pleno estádio, durante uma partida.

Por outro lado, La La La representou o povo unido, não só pelo evento esportivo em si, mas por uma causa em comum, qualquer que ela seja (como a questão da desnutrição infantil), ou simplesmente para festejar a vida.

E só para fazer justiça à Cláudia Leitte e seus poucos segundos de participação no tema musical oficial, vamos nos lembrar de que a Copa do Mundo, como diz o próprio nome, é um evento global, logo, não faria sentido ter apenas músicas brasileiras como trilha sonora. O que abordei, até aqui, é se a nossa cultura foi bem ou mal representada.

Porém, enquanto muitos brasileiros se ocupavam divulgando nas redes sociais a sua aversão ao Olé Olá, fato este que chegou a ser noticiado pela Billboard, que é referência mundial no mercado fonográfico, os estrangeiros queriam apenas “saborear” o Brasil: a sua rica cultura, a alegria do povo, o calor humano. Parece inacreditável, mas tudo o que prometia dar errado acabou por dar certo: não se desencadeou uma nova onda de protestos para “atrapalhar” a Copa e toda a estrutura montada para recepcionar os visitantes cumpriu muito bem o seu papel de camuflar um país que vive um momento de crise. Que crise?

Às vésperas das eleições, o povo está dividido, e dessa vez não estou falando sobre a Copa Do Mundo ou de sua respectiva trilha sonora. Há os que odeiam a presidente, os que a amam incondicionalmente – a despeito de todas as suas falhas no governo – e os racionais, que entendem a realidade de que para se fazer um bom governo é preciso ter uma boa equipe, entenda-se Governadores, Senadores e Deputados. Se os ecos que ainda restam dos gritos das manifestações que se perderam no passado ainda pedem por grandes mudanças, é preciso lembrar que estas só ocorrerão se mexermos com o time todo. Somos os técnicos, e cometemos hoje o mesmo erro de Luiz Felipe Scolari: queremos que o presidente seja o nosso Neymar.

Nossa maior decepção não é a música ruim do Pitbull, e nossa maior derrota não é o “sete-a-um”. Somos os perdedores quando pagamos impostos tão altos e ficamos á mercê de um SUS doente, de punições suaves a crimes ultrajantes, da polícia ora corrupta ora ineficiente, de políticos sujos e arrogantes. Ops, desculpem-me, eu quase criei uma música. É decepcionante, sim, ver que o jogo não muda e mesmo assim os jogadores que nos representam continuarem em campo. Esse é o verdadeiro Brasil que a Copa não mostrou. Será que Shakira sabia o que estava dizendo em sua adorada canção?

“it’s Brazil… Now you know it!” – É o Brasil… Agora vocês o conhecem.

maxx

MAXX ZENDAG

 

Nascido em Piracicaba há trinta e um anos, amador na arte da escrita, artes gráficas e fotografia.

Autor do livro “A Águia Dos Ventos: O Leão Do Mirante”. Produziu a arte de cartazes para campanhas da Prefeitura de Piracicaba. Suas fotografias ganharam a exposição temática “É Uma Límgua Portugueza, Concertesa”, mostra paralela do Salão Internacional de humor de Piracicaba em 2010.

Site: http://maxxzendag.wix.com/portal

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“É Uma Límgua Portugueza, Concertesa” no Facebook: www.facebook.com/limguaportugueza

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