Coluna Somos Pop. As reinvenções. Por Maxx Zendag

Posted on 15 de setembro de 2014 por

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Somos POP

Vivemos em um tempo de mudanças. O novo é cool, mas fica com sabor de coisa velha no dia seguinte, como pão francês. O mercado fonográfico, em especial do gênero pop, se tornou um terreno imprevisível. A ordem é fazer uso do elemento surpresa, porém dentro dessa imprevisibilidade, uns prosperam, outros fracassam.

Miley Cyrus é um exemplo disso. Quem não se chocou ao ver a princesinha do pop retomar a carreira musical após um hiato de três anos, com sua língua de fora e o famigerado twerk? Como fizera Madonna nos anos 80, Miley fez uso das polêmicas como meio para se promover. Essa inspiração da cantora se evidencia pelas semelhanças de seu visual com o da Rainha do Pop em seu início de carreira – comparem, também, a arte de capa do álbum “Bangerz” com a do primeiro disco de Madonna. Não foi por acaso que as dividiram o mesmo palco recentemente, em um show acústico. Elas têm muitos pontos em comum, e o principal é a capacidade de se reinventar.

Christina Aguilera não teve a mesma sorte em seu retorno com o álbum Lotus. Com um repertório metade lírico e metade eletrônico, não fica difícil imaginar por que o público não se identificou com sua nova fase, e sobraram críticas ao estilo gagaísta com que a diva se apresentou no vídeo de “Not Myself Tonight”, além de a mídia não poupá-la a respeito dos quilinhos a mais. Essa ditadura do corpo perfeito soa meio ultrapassada, num mercado que consagrou grandes vozes como Adele, que com seu timbre poderoso abafou as vozes de quem ousou mencioná-la como uma mulher fora dos padrões.

A lista de artistas pop que tentaram se reinventar é extensa, e os resultados nem sempre são fáceis de compreender. Britney Spears retornou com o que, segundo ela própria, seria um álbum mais pessoal. O que se viu, no entanto, foi uma sonoridade eletrônica, com vocais quase irreconhecíveis modificados por autotune, graças à produção questionável de Will.i.am. Ariana Grande teve mais sorte em seu segundo álbum, e apostou na receita pop do momento: arranjos orgânicos, tempero r&b e parcerias. Deu certo em “Problem” e “Bang Bang”. Já Nicki Minaj surpreendeu após anunciar que abandonaria o visual espalhafatoso e cor-de-rosa, para iniciar sua nova fase fazendo uma ode a seu próprio corpo – em especial às nádegas. Lamentável que o lirismo de “Pills N Potions” tenha sido um alarme falso.

O que vemos são cantoras que deixaram sua marca na música pop, mas que, ao tentar inovar para se manterem em evidência, acabaram por anular a própria identidade. Deu certo – por enquanto – para poucas como Nicki e Miley, mas a grande maioria não sobreviverá nesse mercado. E há uma artista que sabe disso como ninguém: Lady Gaga. Se um dia ela fora considerada a nova Rainha do Pop, hoje experimenta o sabor amargo do ostracismo, com shows de baixa vendagem e músicas de trabalho malsucedidas nas paradas. Ela foi vítima do próprio veneno: ao impor para si mesma a obrigação de se reinventar o tempo todo, e dar um significado a cada vídeo, roupa ou gesto, ela acabou por se perder no próprio conceito. O último álbum, “ARTPOP”, prometia ser extremamente conceitual mas, no fim, teve pouco de arte, e um fraco apelo para o agitado mercado pop.

Uma situação análoga acontece há tempos no cenário político do nosso país. Partidos e seus candidatos tentam se reinventar para chegar à vitória na corrida eleitoral. Assim como na música pop, a maioria deles se perdeu dos próprios ideais.

Já faz um tempo que o PT não é um Partido dos trabalhadores, embora tenha o carinho de divulgar indicadores que mascaram a real situação do desemprego no país. Bem ao contrário do que sugeria sua ideologia, sua forma de governar se baseia no assistencialismo, que torna o cidadão dependente do próprio poder público, através de suas famigeradas Bolsas.

O PSDB não defende a Social Democracia que sua sigla ostenta, visto que um dos fundamentos da democracia é assegurar ao povo o poder de influenciar nas decisões do governo, coisa que tal partido não demonstra. Basta recordarmos os ouvidos surdos do prefeito de Piracicaba e governador de São Paulo diante das vozes que gritavam nas ruas no ano passado. Foi com muito custo que nosso ilustres representantes se abriram a uma negociação.

Tomo como exemplo, também, o PMDB. O partido tem um histórico singular na política brasileira, mas nada restou da época em que ele realmente se engajava no Movimento Democrático. Lamentavelmente, o único movimento que vimos nas últimas décadas foi o das alianças: o partido já apoiou Fernando Henrique e Lula. O que demonstra que sua principal ideologia talvez seja o fisiologismo.

Como declarou um candidato ao governo paulista recentemente, temos um número muito grande de siglas no país, mas pouca ou quase nenhuma ideologia. Tanto nos partidos políticos – e seus filiados – quanto na música, falta personalidade. O curioso é que o Horário Político obrigatório na TV tem mais de ARTPOP que o disco de Lady Gaga. De Clark Crente a Battman (assim mesmo, com dois “t”), a corrida eleitoral se transformou num universo artístico e criativo. O imenso sucesso da língua de Miley Cyrus e das nádegas de Nicki Minaj, não me incomodam tanto quanto a vitória de um palhaço (ou mais) nas eleições.

A música pop vive em constantes mudanças, e com frequência vemos surgir novos nomes na liderança desse mercado. O mesmo deveria acontecer com a nossa política. Não está na hora de revermos os nossos conceitos, e darmos uma cara nova ao governo? Permitam-me o uso de uma expressão um tanto desgastada pelo tempo, mas seria uma boa ideia, nestas eleições, se todos nós resolvêssemos “trocar o disco”.

MAXX ZENDAG

 

Nascido em Piracicaba há trinta e um anos, amador na arte da escrita, artes gráficas e fotografia.

Autor do livro “A Águia Dos Ventos: O Leão Do Mirante”. Produziu a arte de cartazes para campanhas da Prefeitura de Piracicaba. Suas fotografias ganharam a exposição temática “É Uma Límgua Portugueza, Concertesa”, mostra paralela do Salão Internacional de Humor de Piracicaba em 2010. Selecionado para a edição de 2014 do Salão.

Site: http://maxxzendag.wix.com/portal

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“É Uma Límgua Portugueza, Concertesa” no Facebook: www.facebook.com/limguaportugueza

 

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