Somos Pop. O Sonho Brasileiro. Por Maxx Zendag

Posted on 28 de abril de 2015 por

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Maxx Zendag 2015

Em 21 de abril de 2003, véspera do Dia do Descobrimento do Brasil, Madonna surpreendeu o público ao lançar um disco com temática politizada. Arrisco dizer que “American Life” foi a obra prima de sua carreira, pelo rico conteúdo e pela crítica inteligente e afiada de seus versos. Infelizmente para a rainha do Pop, seu projeto acabou se mostrando um tiro no pé, uma vez que, em boa parte das faixas, ela criticava o chamado “sonho americano”. E ela pagou um preço alto por atacar a cultura do país que é o maior mercado fonográfico do mundo: “American Life” foi um dos maiores fracassos em vendas de sua carreira. Pois bem, consideremos que a qualidade de um disco não pode ser mensurada por suas vendas, da mesma forma que um filme ganhador do Oscar raramente é um recordista de bilheteria.

O curioso é que, mesmo passados 12 anos de seu lançamento, as canções desse álbum ainda trazem mensagens que podem ser facilmente aplicadas à realidade brasileira, principalmente em um tempo no qual nosso país se vê dividido entre dois (ou mais) caminhos distintos.

Madonna cantou que “É tão difícil achar alguém para admirar” (Nobody Knows Me). Sobretudo quando estamos falando de política. E não é que nós, brasileiros, um dia encontramos alguém para admirar? Foi assim que eu, e mais 52 milhões de eleitores, depositamos confiança num certo Lula que, coincidentemente, assumiu o poder no ano de lançamento do álbum que inspira esse texto. E como nos sentimos agora, doze anos mais tarde? Um verso parece-me perfeito para expressar o que sinto (por conveniência, troco aqui o termo “americano” por “brasileiro): “Só estou vivendo distante do sonho brasileiro / E acabo de descobrir que as coisas não são o que parecem ser” (American Life)

Pergunto: o que aconteceu no meio do caminho? O que levaria ao declínio a imagem de um partido tido como idealizador e defensor dos trabalhadores? A inspiração para uma possível resposta surge quando eu troco o nome de Hollywood pelo do Distrito Federal:

“Todo mundo vem pra Brasília / Eles querem se dar bem no pedaço / Eles gostam do cheiro disso em Brasília / Como algo pode te machucar se parece tão bom? (…) / Eu perdi minha memória em Brasília / Vi as coisas de milhares de formas, boas e más / Tem alguma coisa no ar em Brasília / Já tentei ir embora, mas não consigo (…) / Tem alguma coisa no ar em Brasília / Eu perdi minha boa e má reputação” (Hollywood)

Não deve ser difícil perder a boa reputação e até a memória, quando alguém se vê cercado de possibilidades de se dar bem. Uma vez dentro do esquema, difícil é (querer) sair dele. A ambição é um vício: você quer mais e mais. Se “eu tenho advogado e empresária / uma agente e um cozinheiro / três babás e uma assistente / um motorista e um jatinho / um treinador e um mordomo / e um guarda-costas ou cinco / um jardineiro e uma estilista / Você acha que me sinto satisfeito?” (American Life). E isso não diz respeito somente à ambição por dinheiro, mas por poder. “Eu tentei estar a frente / Eu tentei estar no topo / Eu tentei fazer o papel / Mas de alguma forma eu esqueci / por que eu fiz tudo isso / E porque eu queria mais”. Que fique claro: não me refiro unicamente ao ex-presidente, mas também aos seus companheiros, talvez mais deslumbrados com o poder do que o próprio Lula.

Sem mudar a faixa do disco, recorro a uma grande verdade que, muitas vezes, não passa pela cabeça dos nobres homens públicos: “Esse tipo de vida moderna não é de graça.” Há um preço a se pagar pela corrupção. Embora, em 2014, tenhamos começado a ver alguns políticos corruptos pagarem o preço por seus desmandos, historicamente foi sempre o povo quem pagou a conta. E mais revoltante que tudo isso, é a alienação da massa, que permanece indiferente à roubalheira descarada dos grandes, pois tem sua opinião vendida pelo preço de um Bolsa-Família.

Impeachment para quê? E por quê? Aconteceu com Collor, que anos depois retornou à política, eleito pelo próprio povo. Acha mesmo que seria diferente com o que temos aí hoje? Sai a Dilma, e os demais ficam. Há uma canção que define muito bem o perfil do eleitor brasileiro: “Eu sou tão idiota / Porque costumo viver / em um sonho vazio / Eu costumava acreditar / em imagens bonitas / Que estavam ao meu redor / Mas agora, sei com certeza / Que eu era tão idiota!” (I’m So Stupid)

Não somente os representantes do povo, mas o próprio povo parece ter memória curta. Por isso, os políticos sequer se importam com a sua integridade, tampouco com sua imagem diante dos brasileiros. “Não é bom quando você é mal interpretado / Mas por que eu deveria me preocupar / com aquilo que o mundo pensa de mim?” (Nobody Knows Me)

O eleitor, porém é tão culpado quanto vítima, haja vista que “as rádios tocam as mesmas músicas de sempre” (Hollywood), ou seja, as opções que surgem em cada eleição são apenas mais do mesmo.

Eu não acredito que vandalismo e quebra-quebra sejam um caminho para que o povo seja ouvido. Isso remete ao polêmico videoclipe de American Life, lançado em 1º de abril (!) de 2003. A produção fazia uma crítica à guerra, ali tratada com uma forme de entretenimento americano. Na cena final, Madonna atira uma granada em um sósia do então presidente George W. Bush, que simplesmente a pega nas mãos e utiliza como um isqueiro para acender tranquilamente um charuto. O videoclipe foi exibido apenas no dia de sua estreia, vetado pela própria Madonna, em respeito aos soldados americanos que estavam na Guerra do Iraque, tendo sido exibido nas MTVs de todo o mundo apenas no dia de sua estreia (1º de abril!). Ele nos passava uma mensagem de sentido ambíguo: o ato de o presidente norte-americano acender um charuto com uma granada seria um sinal de sua indiferença às atrocidades da guerra, ou uma forma de mostrar que algo destrutivo poderia ser transformado em algo útil? Estabelecendo um paralelo com a realidade atual do Brasil, eu estou mais para acreditar na primeira opção. Claro que não estamos em guerra (ainda bem), mas refiro-me ao lado violento dos movimentos. A desorganização e o vandalismo destroem a credibilidade de uma manifestação. Por isso, fico extremamente feliz por ver que a primeira marcha deste ano contra o governo foi pacífica. Falta, ainda, um foco: há divergências de objetivos, e algumas contradições. Não surpreende que a segunda manifestação tenha sido bem menos expressiva.

Algo, no entanto, me enche de orgulho: há milhões de brasileiros que não querem o caminho fácil, que preferem ter oportunidades de estudo e trabalho, para conquistar o que almejam, e não se contentam com a ideia de viver do assistencialismo do governo. São nesses brasileiros que eu acredito. Sou um deles. A última faixa do disco “American Life” (já posso rebatizá-lo de “Brazilian Life”?) é o que me define:

“Eu quero a vida boa

Mas eu não quero um caminho fácil

O que eu quero é trabalhar para isto

Sentir o sangue e suor na ponta dos meus dedos

É o que eu quero para mim

Eu quero saber tudo

Talvez algum dia eu consiga

O que quero é achar meu lugar

Respirar o ar e sentir o sol

No rosto dos meus filhos

É isso o que eu quero”

(Easy Ride)

MAXX ZENDAG

Nascido em Piracicaba, amador nas artes visual e escrita, apaixonado por música.

Autor do livro “A Águia Dos Ventos: O Leão Do Mirante”. Produziu a arte de cartazes para campanhas da Prefeitura de Piracicaba. Sua série fotográfica “É Uma Límgua Portugueza, Concertesa” virou uma exposição (2010/2011) e um livro (2014). Selecionado para a edição de 2014 do Salão Internacional de Humor de Piracicaba.

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