Um Natal difícil. Por Luis Fernando Amstaldnen

Posted on 24 de dezembro de 2020 por

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Em termos coletivos, esse Natal pode ser mito difícil para a maioria de nós, mas ao mesmo tempo, será também muito mais verdadeiro, uma vez eu estará muito mais próximo do Natal verdadeiro.

E por quê?

Porque uma coisa é certa, Cristo nasceu e viveu pobre e entre os pobres e, nessa situação, o Natal, seu Natal, seu nascimento, não foi uma grande festa, mas um nascimento em situação difícil.

Para os pobres, como Maria, José e Jesus, o nascimento de uma criança sempre era difícil. Sempre precário e cheio de riscos, de sobressaltos, temores e dificuldades para se acolher, sustentar e cuidar de uma criança. Os “natais” dos pobres sempre foram e ainda são, difíceis, perigosos, precários.

Difícil como esse que vivemos neste ano. Temerosos com uma pandemia, preocupados com nossa subsistência em um cenário de crise nacional e econômica, acossados por um clima de intolerância, criminalização do pensamento oposto, apologia da violência e negação ao diálogo e à própria realidade.

Você é capaz de estabelecer o paralelo?

Tanto no tempo de Cristo quanto agora, e talvez em toda a História, os seres humanos viveram sob os riscos e o jugo da pobreza, da violência, da opressão e da exploração. Cristo viveu nesse contexto pregou nesse contexto e ENFRENTOU esse contexto. Enfrentou a pobreza e o poder opressivo de Roma e dos fariseus com uma nova proposta. Uma proposta de mudança do nosso ser, do nosso modo de viver e da nossa sociedade.

Até onde eu sei, nenhuma outra religião antes do cristianismo teve seu fundador nascido entre os mais humildes dos humildes. Nenhuma outra reconheceu e enfrentou tão abertamente o poder dos opressores e nenhum outro mestre acenou para a possibilidade da construção de um mundo mais justo, harmônico e sim, próspero coletivamente, além, é claro de muito mais pacífico e amoroso.  Um mundo no qual seria muito melhor viver, muito mais feliz a vida

E é essa proposta, levada até o extremo do auto sacrifício, que torna a mensagem de Cristo tão especial. Essa fala a partir dos oprimidos, trazendo do fim para o início, aqueles desprezados pelos deuses antigos que “amavam os poderosos”.

E há ainda mais.

Essa mensagem não é só ética ou ideal, é também uma mensagem de sobrevivência, porque enquanto não mudarmos nossos valores, enquanto não soubermos promover a todos, não encontraremos nunca a paz e a prosperidade que essa Terra pode nos dar. Viveremos em guerra, em destruição, em morticínios e na eterna tensão da desigualdade que torna inseguros tanto os ricos quanto os pobres.

Hoje, nossa tecnologia pode destruir não só a nós, mas a todo o planeta e a esmagadora maioria da vida nele. Depois de incontáveis genocídios, extremados pela racionalidade tecnológica no século XX, chegamos a auto suficiência para o apocalipse. Chegamos ao ponto que não precisamos de uma divindade para destruir nosso planeta, mas podemos nós mesmos fazê-lo, sejam por armas seja pela destruição do nosso meio ambiente. E, penso eu, estamos cada vez mais perto disso.

Porém, essa mesma tecnologia, esse mesmo avanço humano, pode também nos dar um mundo melhor, muito melhor. Mas para isso é necessário que tais avanços sejam orientados por uma ética e a ética cristã verdadeira pode ser um ponto de referência revolucionário, no sentido de mudar a face da terra.

Mas falo sobre a verdadeira é tica cristã. Aquela do Cristo que perdoou, falou em alimentar os famintos, vestir os despidos e incluir os excluídos. A ética do Sermão da Montanha e não a dos inúmeros exegetas e fariseus que tornaram Madalena a pecadora a ser apedrejada, quando Cristo a perdoou e acolheu. Da ética do Cristo que nunca falou em matar e, cujo único ato de ira foi o de expulsar os vendilhões do templo, que agora, são os donos e promotores dos templos..

É.. esse Natal vai ser difícil.

Pessoalmente, se me permitem uma confidência, faz anos que os meus natais tem sido difíceis. Mas repito que o de Cristo também foi, assim como são, até hoje, os natais dos pobres, dos fracos e solitários.

Porém, mesmo que eu me sinta triste, assim como tantas outras pessoas, lembro-me da penúria do nascimento de Jesus, e sinto que essa é a verdadeira mensagem. O nascimento de Cristo não representa em si, a festa da perfeição, mas sim a da possibilidade de construirmos um mundo o mais perfeito que pudermos e a festa de esperança e da celebração da nossa capacidade de construirmos tal mundo, seguindo a proposta e a esperança das palavras de Cristo.

Se esse ano, seu Natal for mais restrito, limitado, seja pela falta de pessoas amadas junto com você, seja pela maior insegurança ou  menor fartura, não se desespere.

Você estará vivendo o Natal original, difícil, mas pleno de promessa e esperança cuja realização está em nossas mãos.

Dedicado a meu pai, Luiz Amstalden e a meu primo, Antônio Carlos Danelon, que não estarão comigo nesse Natal.

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