O Necessário e o Supérfluo. Por Luis Fernando Amstalden

Posted on 16 de maio de 2013 por

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Diz tanto o bom senso quanto a prudência, que para se ter equilíbrio econômico é necessário, em primeiro lugar, não  gastar o que não se tem. Em segundo lugar, e tão importante quanto, é preciso gastar com racionalidade, colocando em primeiro lugar as coisas mais necessárias e, somente depois, se houver condição, se gastar no supérfluo. Assim, se você administra uma casa, deve gastar dentro de suas possibilidades e colocar primeiro aquilo que é básico. Não é racional comprar um objeto de decoração se não há o suficiente para alimentar a família, não? E depois de alimentar a si e aos seus, os responsáveis pela família devem cuidar da vestimenta, da educação, da moradia e da locomoção, dos transportes de todos. Só então vem o supérfluo, o decorativo e o de uso menos importante.

Da mesma maneira, um Estado pode ser comparado à casa de todos, ao local onde uma comunidade (coisa que a família também é) vive e produz, trabalhando e gerando renda em conjunto. Pelo nosso sistema capitalista, esta “casa” que é o Estado, não é obrigada a prover alimento para todos os seus “moradores” que são os cidadãos. Pelo menos não é obrigada a provê-los diretamente. Mas existem outras obrigações que se entendem como corretas, tais como oferecer um bom serviço de saúde, boas escolas e boas condições de transporte a seus cidadãos. No pensamento capitalista, embora com variações, entende-se que se a população tiver  boas escolas, boa saúde e bom transporte, além da segurança, claro, terá condições de prover sua própria alimentação e os demais itens necessários a sua sobrevivência e desenvolvimento. Eu pessoalmente acredito que as atribuições do Estado deveriam ser mais intensas, mas isto é outra história.

O que conta, de qualquer maneira, é que quem mantém a “casa” da sociedade, o Estado em minha comparação, somos nós. Os governantes nada mais são do que representantes que escolhemos para gerenciar este Estado, esta casa. Mas o dinheiro que eles têm para fazer isso vem do nosso bolso, através dos impostos. Mesmo quem não paga imposto de renda, paga uma infinidade de outros tributos diretos e indiretos. ICMS, IPI, IPTU, ISS e tantos outros, estão embutidos no preço de tudo o que você compra e consome, de uma caixinha de fósforos a um imóvel novo. São grandes fortunas, de bilhões de reais, geradas em forma de tributos e entregues ao Estado a fim de que ele “administre a casa”. E daí vem a questão: no Estado Brasileiro, em suas diferentes instâncias (município, poder estadual e poder federal) este dinheiro que nós geramos está sendo mesmo utilizado de forma adequada? Esta sendo mesmo investido tudo o que se pode e deve nas necessidades básicas da “família”, principalmente as educacionais, as relativas à saúde, à segurança e aos transportes? Eu não acredito.

Em minha forma de ver, tanto hoje com um período de relativa estabilidade econômica que nosso país tem vivido, quanto no passado, os investimentos no que é realmente necessário são muito menores do que deveriam ser. Neste exato momento, grandes estádios estão sendo construídos no país todo para a Copa do Mundo. Junto com estes gastos vêm os das Olimpíadas e, sobre estes, ouso fazer aqui uma previsão: passados os jogos, a maioria das instalações construídas (quadras, estádios, piscinas, alojamentos etc) ficarão ociosas ou sub aproveitadas. Isso aconteceu na Espanha, na Grécia e em outros países. Por que não vai acontecer aqui?

E enquanto as grandes obras são construídas, fazendo a alegria de grandes empreiteiras que depois deixarão os políticos felizes, contribuindo para suas campanhas, os índices de educação, saúde e segurança de nossa população continuam sofríveis, para falar o mínimo. Enquanto o mundo se torna cada vez mais complexo e a necessidade de educação cada vez maior, por exemplo, o Brasil ficou, em 2012, em penúltimo lugar num ranking de avaliação educacional que comparou quarenta países, encomendado pela editora Pearson (no da UNESCO, em 2011, ficamos no 88º lugar). Não vou citar, porque não cabe, os índices de saúde, transportes e segurança. Agora me diga, estes dados são de quem está investindo no que é necessário ou no que é supérfluo? E esta situação é velha, muito velha, mas a questão é, porque o povo continua reelegendo estes que gastam mal o seu dinheiro? Existem muitos motivos, mas um deles  é o de que nossa população simplesmente não sabe que é ela quem paga por tudo isso. Você mesmo, que me lê agora, sabe dizer quanto de tributos paga num mês? Bem, se você que está lendo parou para pensar, imagine a esmagadora maioria de nossa população que não lê jornal e não entende direito as notícias.

Na semana passada a prefeitura de Piracicaba inaugurou uma passarela monumental ligando uma margem a outra do Rio Piracicaba. Eu polemizei com o ex prefeito Barjas Negri sobre isso há pouco mais de um ano, por este Blog e no Jornal de Piracicaba. Argumentei que a passarela é inadequada em todos os sentidos e desnecessária, particularmente para uma cidade num país ainda com tantas lacunas. Com ela pronta, minha avaliação não mudou. Ao contrário, se fortaleceu diante do tamanho da obra. Quando você tiver a oportunidade de atravessá-la, pare no meio e pense um pouco por si próprio. Ela é necessária ou supérflua? Os milhões gastos lá poderiam estar em outro lugar mais adequado? E, de qualquer modo, pise firme. Você  pagou por ela mesmo…

Se você quiser ver o artigo original, a resposta de Barjas Negri e a minha réplica, seguem os links.

https://blogdoamstalden.com/2012/04/24/uma-ponte-longe-demais/

https://blogdoamstalden.com/2012/04/24/a-resposta-do-prefeito/

https://blogdoamstalden.com/2012/05/03/o-sociologo-e-o-prefeito/

Depois disso, não houve mais manifestação de Negri

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